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24/11/2014 16:07 -02 | Atualizado 26/01/2017 21:52 -02

Paul Zaloom, do seriado 'O Mundo de Beakman': 'o episódio sobre catarro foi um dos mais populares de todos os tempos'

Reprodução/TV Cultura

Bolhas, inércia, espinhas, digestão, pus. (Quase) nenhum tema era estranho demais para aparecer em O Mundo de Beakman, programa infanto-juvenil exibido originalmente no Brasil pela TV Cultura durante a década de 1990. Com conteúdo tão irreverente, é curioso lembrar que tudo começou graças a uma medida burocrática. O pontapé inicial para a criação da atração que marcou a infância de crianças em todo o mundo foi a Lei da Televisão Infantil, implantada em 1990 pela Comissão Federal de Comunicações dos Estados Unidos com a ideia de aumentar a quantidade de programação infantil educativa na televisão nacional.

A inspiração para o programa veio da tirinha U Can with Beakman and Jax, do cartunista Jok Church — nos quadrinhos, Beakman e sua irmã Jax solucionavam dúvidas dos leitores. Com conceito fechado, partiram em busca de um ator em Hollywood que topasse assumir o papel, mas não conseguiam achar ninguém maluco o suficiente. O diretor do programa, Jay Dubin, lembrou de Paul Zaloom, um performer que havia conhecido nos anos 1980. O artista não só topou como ajudou a conferir ao programa a cara que conhecemos. Apesar de não ser creditado como roteirista ou criador do programa (a emissora não queria aumentar o cachê do artista), Paul se voluntariou para ajudar a dar forma ao seriado e emprestou muito da própria personalidade ao cientista com cabeleira rebelde e assistente vestido de rato — ele considera Beakman uma exageração de si mesmo.

No dia 5 de fevereiro de 2015, às 13 horas, Paul Zaloom e seu alterego amalucado estarão na Campus Party Brasil 2015, que acontece de 3 a 7 daquele mês. Ele conversou com a SUPER sobre sua carreira, inspirações e a popularidade de funções corporais entre seus pequenos fãs. Confira abaixo.

LEGADO IRREVERENTE

Entre cientistas, neurocirurgiões e astrofísicos, O Mundo de Beakman inspirou muita gente a seguir carreira científica. “Eu sempre pergunto para as pessoas o que no seriado as atraía tanto. Muitas vezes eles respondem ‘você apresentava a ciência de um jeito muito legal’ ou então ‘era muito divertido de assistir’. Mas eu suspeito que a sensibilidade do seriado, o tom, o humor surreal, a irreverência, o conceito esquisito – todas essas coisas – são também responsáveis pela apaixonada popularidade do seriado“, afirma Paul.

O premiado programa, ganhador do Emmy, foi produzido entre 1992 e 1997 – foram quatro temporadas e um total de 91 episódios. No pico de sua popularidade, o seriado foi visto em quase 90 países ao redor do mundo e chegava a receber mais de 1 mil cartas escritas pelos pequenos telespectadores. Funções corporais eram o maior hit do programa. “As crianças adoravam esse tema. Nosso episódio sobre meleca/catarro foi um dos mais populares de todos os tempos", relembra.

Mas nem sempre a irreverência temática era fácil de ser conquistada. Uma das perguntas consideradas mais malucas – e que foram mais difíceis de levar ao ar – foi a inocente o que são peidos? “Queríamos responder a pergunta há tempos, mas a emissora não permitia. Eles finalmente mudaram de ideia na última temporada do seriado e permitiram que fizéssemos um episódio sobre flatulência. Foi realmente um triunfo histórico nos anais da educação científica”, brinca Zaloom.

ARTE + CIÊNCIA

O pequeno Paul Zaloom também era fã das ciências — mesmo que o boletim nem sempre refletisse isso. Quando era criança, seus maiores interesses eram as ciências naturais, principalmente a ecologia da região da Nova Inglaterra, onde nasceu e cresceu. “Eu passei muitos verões nas florestas de Vermont quando criança e todo o ambiente era fascinante, particularmente a simbiose entre várias espécies diferentes de plantas e animais”, relembra.

Outra coisa que lhe fascinava desde a infância era a arte. “Eu tinha uma ‘galeria’ em nossa garagem com vários objetos encontrados em exibição“, conta. A relação com a arte e a natureza é tão forte que Zaloom afirma que, se sua vida tivesse tomado outros rumos, adoraria ser um pintor como o americano Alexis Rockman. “Ele pinta lindamente as relações entre os seres humanos e os animais, o meio ambiente e os sistemas ecológicos que inventamos em ambientes urbanos. Peço aos leitores para conferirem o trabalho muito legal de Rockman, que toca tão profundamente na complicada relação dos seres humanos com as ciências naturais”, diz. Fica a dica.

Coletando e reunindo referências da pop art com trabalhos de artistas como Andy Warhol, a pequena galeria montada em casa na infância não inspirou apenas a imaginação de alternativas profissionais, mas influenciou diretamente os trabalhos desenvolvidos por Zaloom na idade adulta. “Aquela sensibilidade teve um enorme impacto e influenciou meu trabalho com bonecos e marionetes mais adiante”, afirma.

MESTRE DOS BONECOS

Longe de se considerar um ator, Paul prefere se intitular um performer. E faz questão de reforçar várias vezes: é, antes de tudo isso, um titereiro. “É parecido [com o trabalho de um ator], exceto pelo fato que você atua através de bonecos, objetos, luvas, papel e sombras. Muito mais interessante que só atuar! Além disso, eu posso interpretar todos os papeis! Escrever o espetáculo! Planejá-lo! Fazer o que eu quiser!”, explica já prevendo que a informação pode ser recebida com surpresa.

A verdade é que ao topar dar vida ao cientista amalucado na telinha no início dos anos 1990, Paul Zaloom se aventurava em terreno desconhecido. Era a primeira vez que assumiria o papel de um apresentador infantil. Na Goddard College – faculdade com aura hippie e progressista localizada em Vermont (EUA) - Zaloom se formou “bonequeiro” e se juntou ao Bread and Puppet em 1971, grupo de teatro de bonecos em atividade desde os anos 1960 conhecido por seu ativismo político e posicionamento antibelicista.

O trabalho como titereiro é sua ocupação principal e suas elogiadas criações no teatro de bonecos não são para os pequenos – voltadas para o público adulto, suas apresentações levam para os palcos objetos inusitados para dar vida a sátiras políticas e abordar temáticas sociais. A explicação para uma transição tão bem sucedida para o trabalho voltado para o público infantil talvez esteja em uma alma juvenil do performer, presente em todos seus trabalhos desde seus primeiros passos. “Na performance do Sr. Zaloom há uma qualidade de brincadeira de criança, mas é um jogo adulto extremamente inventivo. Nos anos desde que ele começou a se apresentar, ele cresceu como um ‘palhaço’ e como comentarista social. Ele tornou-se um antídoto ecológico para os venenos e poluentes na vida cotidiana”, afirmou o crítico do New York Times, Mel Gussow, sobre o trabalho My Civilization no longínquo ano de 1991.

HUMOR PARA CRIANÇAS É COISA DE GENTE GRANDE

Com experiência em criar para ambos os públicos, não tem dúvidas: crianças e adultos acham graça de coisas diferentes e nem sempre é óbvio o que vai fazer os pequenos gargalharem. “Nós tendemos a esquecer o que achávamos engraçado quando éramos crianças. A audiência costuma me guiar muito, já que crianças riem de certas coisas e não entendem outras. Eu sei que elas amam repetição, funções corporais, piadas visuais e adultos sendo depreciativos”, contou.

Mas, mesmo quando está falando com um público jovem, Zaloom não abre mão do humor destinado aos crescidos – eles não podiam ficar de fora: nos Estados Unidos, a audiência de O Mundo de Beakman era 52% composta por adultos. “Nas apresentações que faço sempre tento inserir piadas para crianças e adultos, o que eu também fazia no programa televisivo. Os fantásticos desenhos animados da Warner Brothers também tinham brincadeiras com diferentes níveis de compreensão. Eu acho que crianças podem aprender muito ao se esforçarem para entender piadas voltadas para os adultos – elas ajudam a fazer com que tentem superar os limites de sua compreensão e extrapolar sentidos a partir das informações e contexto disponíveis”, afirma.

BADA-BING! BADA-BANG! BADA-BOOM! MAIS UMA VEZ

Apesar do programa televisivo do cientista irreverente ter sido cancelado em 1997, Paul Zaloom mantém Beakman vivo. Hoje, com 62 anos, o artista continua se apresentando com o show Beakman Live!, que segue a mesma linha do seriado explicando ciência de um jeito divertido nos palcos de todo o mundo. “Eu realmente gosto de fazer apresentações ao vivo. É o que eu tenho feito durante toda a minha vida adulta, desde quando eu tinha 19 anos e realmente nunca fiz outra coisa”, conta.

Ao longo dos mais de 40 anos de carreira, Zaloom produziu dois filmes (In smog and thunder, em 2003, e Dante’s Inferno, em 2007) e deu aulas de marionetes e histórias cantadas, mas seu foco principal sempre foi estar nos palcos. “Atuar simplesmente não me interessa. Estou mais interessado em ‘performar’, em criar situações em que é óbvio para o público que você não está tentando enganá-los ou fazê-los pensar que você é ‘real’”, afirma. Por isso, um dos seus quadros favoritos em O Mundo de Beakman era aquele em que o cientista de jaleco escapava por um lado da tela para dar imediatamente lugar a Benjamin Franklin, Thomas A. Edison ou qualquer outro cientista que era o “convidado” da vez. A ideia era que fosse óbvio para o público que as personas do mundo científico eram interpretadas pelo próprio Beakman, mas o programa brincava com as crianças ao fazer parecer “impossível” que fossem a mesma pessoa. “Eu chegava na direção oposta segundos depois que o cara morto saía… por isso, será que o cara morto era realmente interpretado por mim? Era uma piadinha conceitual. Beakman era um programa muito cabeça!”, brinca Zaloom.

Uma das maiores potências de O Mundo de Beakman – e, agora do show ao vivo – está no fato de o programa funcionar como um catalisador que desperta a curiosidade do público formado pelos pequenos (e pelos crescidos). “Eu acho que crianças e adultos se interessam por coisas diferentes, mas podem ter curiosidade sobre praticamente qualquer assunto se apresentados a materiais, ideias e conceitos interessantes. Todos nós temos uma curiosidade natural, especialmente as crianças. O desafio da educação é ter certeza de que a curiosidade é estimulada e desenvolvida de modo que possa ter continuidade durante a idade adulta, período em que a curiosidade vai enriquecer a vida de tantas maneiras”, afirma.

Passados mais de 20 anos desde que vestiu pela primeira vez o jaleco verde e a peruca rebelde de Beakman, Paul deixou poucas vezes um fã curioso na mão. “Eu recebi recentemente uma pergunta que não fui capaz de responder: ‘Por que estamos aqui?’. Você pode me ajudar a resolver essa?”, brinca. Por aqui, a gente ainda não chegou a uma conclusão – e você, arrisca uma resposta?

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