MUNDO
11/02/2016 16:56 -02 | Atualizado 26/01/2017 22:31 -02

Apresentadora de TV iraniana divulga áudios de ex-chefe no Facebook em denúncia de assédio sexual

Reprodução/Facebook

“O que vem em primeiro lugar, a sua dignidade e os seus valores ou o seu trabalho? Estou sendo ameaçada constantemente. Este áudio não é fabricado”.

Foi assim, em um série de posts no seu perfil do Facebook, que Sheena Shirani resolveu pôr fim aos repetidos assédios em seu ambiente de trabalho e se tornou um símbolo para tantas outras mulheres vítimas de abuso e silenciamento no Irã.

A ex-apresentadora da Press TV, canal estatal iraniano de notícias em inglês, denunciou o seu ex-chefe, o diretor de notícias Hamid Reza Emadi, que é casado, e outro funcionário, o diretor de estúdio Payam Afshar, de constantemente lhe pedirem favores sexuais.

Sheena Shirani vazou os áudios de conversas no telefone (alguns deles, segundo Shirani, foram deletados pelo Facebook) e prints de mensagens de texto. Ela trabalhou na empresa durante nove anos e afirma ter passado por situações como essa durante todo o período. Após o desabafo nas redes, Shirani pediu demissão e deixou o país com o seu filho.

No áudio, Emadi pede que a mulher o visite após o fim do trabalho e insiste para que ela faça sexo com ele. “Eu sempre te apoiei. Eu sempre te ajudei. Eu não estou pedindo para que você mate alguém. Você pode me ajudar como uma amiga. Você pode fazer sexo comigo como amiga”, diz a gravação.

Em outra conversa, ele pede elogios por ter emagrecido e se autointitula como o “hot boss, the pervert mother fucker that I am”, em tradução literal, o “chefe quente, o pervertido que sou”.

Após a denúncia vir a público, Emadi se defendeu dizendo que as gravações eram falsas. O jornalista ameaçou Shirani, postando uma série de mensagens na rede, pedindo para que ela apagasse todo o conteúdo e afirmando que se ela mantivesse a denúncia seria "muito pior para ela". Emadi alegou ainda que ele não merecia nada disso, já que ele sempre "fez tudo para apoiá-la e ao seu filho".

As justificativas de Emadi nas conversas publicadas na rede social são velhas conhecidas das vítimas do machismo: ele pressionava a apresentadora e a chantageava afirmando que ele sempre tinha dado “apoio”, logo, ela o devia favores.

Em outra publicação, a ex-apresentadora argumentou sobre o motivo de não ter “gritado” ou “feito algo antes”, e sim esperado para publicar as gravações:

“Se eu fosse diretamente apoiada pelo líder da República Iraniana, se eu tivesse recebido uma posição privilegiada por conta dos favores que eu fiz ao Irã e se eu caminhasse pelo prédio gritando ‘Eu amo Agha’ [termo utilizado por alguns iranianos para se referir ao seu líder], acreditem em mim, nenhum homem da Press TV teria ousado me assediar. Mas eu nunca estive ligada a ninguém do sistema. Eu era lembrada a todos os momentos que eu não passava de uma empregada que poderia ser substituída em um estalar de dedos; de que eu precisava da Press TV e eles não precisavam de mim; e de que ser mãe solteira e divorciada no meu país me torna um alvo fácil, logo eu tenho que rezar para os homens. Ainda, que tudo o que me aconteceu foi por minha culpa. E esses são apenas alguns dos motivos do por quê eu vazei os áudios”.

I just saw a text from a former manager at Press TV, Shahrzad Mir Gholikhan, asking me why I didn't use my fists and...

Publicado por Sheena Shirani em Sexta, 5 de fevereiro de 2016

O caso de Shirani repercutiu no país e na mídia internacional.

De acordo com reportagem do NY Times, Emadi já havia sido citado em uma lista europeia de violadores de direitos humanos.

O caso ocorreu em 2013, quando ele foi alvo de sanções após o canal iraniano ter transmitido uma entrevista realizada sob coação com o jornalista da Newsweek Maziar Bahari. Devido a essa ocorrência, a Press TV perdeu sua licença de transmissão no Reino Unido.

Nas redes sociais, grande parte do público apoiou a atitude da apresentadora, já que é muito comum que as situações de assédio sejam esquecidas e foi aberto um intenso debate sobre a situação das mulheres no mercado de trabalho do país.

A Press TV é vista como uma poderosa organização midiática estatal constantemente utilizada como ferramenta das linhas mais conservadoras iranianas, segundo o Times.

Em uma declaração oficial, a empresa afirmou ter suspendido dois profissionais, que não foram identificados. O fato do assédio sexual não foi mencionado e a nota afirma que o vazamento dos áudios foi resultado de uma estratégia da oposição para denegrir a situação política atual do país.

LEIA MAIS:

- Metrô de SP tem número recorde de assédios sexuais contra mulheres em 2015, aponta agência

- Um jornalista criticou Susan Sarandon por usar decote aos 69. A internet respondeu.

- Ministro da Defesa pede o cargo após fazer comentário sexista contra jornalista na Sérvia

SIGA NOSSAS REDES SOCIAIS:

Eleições nos EUA
As últimas pesquisas, notícias e análises sobre a disputa presidencial em 2020, pela equipe do HuffPost