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13/10/2020 16:30 -03 | Atualizado 13/10/2020 16:44 -03

Em julgamento, Carol Solberg é advertida e não poderá voltar a gritar 'Fora, Bolsonaro!'

Atleta foi denunciada pela procuradoria do STJD do vôlei por ter se manifestado contra o presidente Jair Bolsonaro em entrevista ao vivo.

Em julgamento virtual do STJD (Superior Tribunal de Justiça Desportiva) do vôlei, realizado nesta terça-feira (13), a jogadora de vôlei de praia Carol Solberg, 33, recebeu uma multa de R$ 1.000, que foi convertida em uma advertência. 

A atleta foi denunciada pela procuradoria do tribunal desportivo da modalidade por ter gritado “Fora, Bolsonaro!” durante uma entrevista ao vivo após etapa do Circuito Brasileiro em Saquarema (RJ) no último dia 20 de setembro.

Ela foi condenada, por três votos a dois, com base no artigo 191 do CBJD (Código Brasileiro de Justiça Desportiva), por descumprir regulamento da competição, com multa convertida em um “puxão de orelha”.

Os auditores deixaram claro durante o julgamento que Carol não pode voltar a se manifestar politicamente na quadra. O voto de minerva foi do presidente da comissão, Otacílio Araújo. “Foi um puxão de orelha, uma advertência. Se ela repetir, pode ser punida de uma forma pior”, ele justificou, segundo o UOL.

Ainda cabe recurso da defesa, porém, com a decisão, a atleta está liberada para participar de próxima etapa do Circuito Nacional. 

O caso ganhou repercussão após a atleta ser ameaçada nas redes sociais por apoiadores do presidente Jair Bolsonaro e por ter um tratamento diferenciado da CBV (Comissão Brasileira de Vôlei) se comparado a seus colegas de modalidade, Wallace e Maurício. Em 2018, ambos demonstraram apoio ao então candidato à presidência após partida da seleção brasileira. 

Andrea Kareth via Getty Images
Durante julgamento, Solberg foi questionada mais de uma vez se teve a intenção de ofender o Banco do Brasil ou a CBV ao se manifestar politicamente.

Segundo a denúncia apresentada no último dia 28 de setembro, a atleta teria infringido dois artigos do CBJD (Código Brasileiro de Justiça Desportiva): o 191, que versa sobre deixar de cumprir o regulamento da competição, e o 258, que diz respeito a assumir qualquer conduta contrária à disciplina ou à ética desportiva não tipificada pelas demais regras do código.

Pelo artigo 191, pelo qual foi advertida, a atleta poderia ter sido multada entre R$ 100,00 e R$ 100 mil ou receber advertência. Já o artigo 258 prevê veto de uma a seis partidas, suspensão de 15 a 180 dias ou advertência.

Além de Carol Solberg e seu advogado de defesa, Leonardo Andreotti, outros cinco auditores participaram da sessão nesta terça: os advogados Otacílio Soares de Araújo, presidente da CBV (Comissão Brasileira de Vôlei), Robson Luiz Vieira, escolhido em sorteio para relatar o caso, além de Gustavo Silveira, Rodrigo da Paz Ferreira Darbilly e Marcos Eduardo Bomfim.

Durante julgamento, Solberg foi questionada mais de uma vez se teve a intenção de ofender o Banco do Brasil ou a CBV ao se manifestar politicamente. Ela foi a primeira a falar no julgamento virtual. 

“Estava muito, muito feliz de ter ganhado o bronze e na hora de dar minha entrevista não consegui não pensar em tudo que está acontecendo no Brasil e me veio um grito totalmente espontâneo de tristeza e insatisfação com o que está acontecendo”, disse. “Nunca tive nenhum problema com a CBV. Represento o Brasil desde os 15 anos e nunca tive problema com a CBV.”

A maioria, inclusive o subprocurador Wagner Dantas, que denunciou a atleta, entendeu que a infração ao artigo 258 deveria ser desconsiderada.

Na época da repercussão do caso, a CBV repudiou a atitude a atleta e afirmou que “tomará todas as medidas cabíveis para que fatos como esses, que denigrem a imagem do esporte, não voltem mais a ser praticados”.

“Aproveitamos ainda para demonstrar toda nossa tristeza e insatisfação, tendo em vista que essa primeira etapa do CBVP Open 2020/2021, considerada um marco no retorno das competições dos esportes olímpicos, por tamanha importância, não poderia ser manchada por um ato totalmente impensado”, disse a confederação.

Havia um entendimento de que a manifestação de Solberg colocava em risco o patrocínio do Banco do Brasil ao vôlei, algo que é feito desde 1991. 

Segundo o UOL, a CBV tem 85% da sua receita atrelada ao governo federal, seja por investimento direto ou por meio do Banco do Brasil. Portanto, há uma dependência da confederação de decisões governamentais para sobreviver.

Pelo balanço da CBV de 2019, informa o UOL, a sua receita total foi de R$ 89,5 milhões. Os valores são parecidos com outros anos, mesmo antes da eleição de Bolsonaro.

Entenda o que está em jogo no ‘Caso Carol Solberg’

Reprodução
Carol Solberg, no momento em que gritou 'Fora, Bolsonaro!'. 

No final de setembro, o grito de “Fora, Bolsonaro!” de Carol Solberg viralizou nas redes sociais e gerou não só uma nota de repúdio da CBV (Confederação Brasileira de Voleibol), mas também forte reação dos apoiadores do presidente, ameaças e produção de notícias falsas sobre a atleta nas redes sociais. 

É unânime entre os especialistas ouvidos pelo HuffPost que o ambiente esportivo não é neutro e tem um potencial de comunicação significativo que o transforma em uma plataforma para discutir questões sociais - seja por meio de manifestações políticas ou de discussões identitárias, por exemplo. 

Nesse sentido, o cenário esportivo mundial passa por revolução: além da constatação de que na NBA, NFL e F-1, os atletas têm liberdade para se expressar, o Comitê Olímpico Internacional (COI) está estudando mudança de regra rígida sobre o tema. A famosa Regra 50, que proíbe manifestações diversas em todos os locais de competição e eventos como pódio, festa de Abertura e Encerramento, entre outros, pode mudar (em entrevistas, porém, o atleta pode se manifestar de forma livre).

Via nota, a CBV repudiou a manifestação da atleta mas não comentou sobre este caso nem sobre o caso de Wallace e Maurício.

“Existe uma falsa sensação de que o ambiente dos esportes é como se fosse um ambiente de pureza, de alegrias, de neutralidade, que de alguma forma os atletas se despem da vida pública e política para ocupar aquele espaço. E que hoje existe um esforço para enxergar o esporte como apolítico. Isso não é verdade. Desde que o esporte existe, há manifestações políticas ligadas a ele”, pontua ao HuffPost a pesquisadora e historiadora do esporte Aira Bonfim. 

A tensão entre o posicionamento político e ambientes esportivos não é de hoje. Nas últimas décadas, outros atletas também foram protagonistas em momentos políticos do País como, por exemplo, pedir pelo fim da ditadura militar e exigir mudanças em modalidades.

Para Flávio de Campos, doutor em história social e professor da USP (Universidade de São Paulo), o ambiente esportivo, atualmente, está em disputa, assim como outras áreas da sociedade. “Antes de enxergar um atleta de uma modalidade esportiva, de uma seleção, de um clube, etc., é preciso enxergar um cidadão, que tem direitos e responsabilidades. E esse cidadão tem o direito de se manifestar politicamente.”

É o exercício deste direito que está acontecendo na NBA (National Basketball Association), liga de basquete norte-americana, frente aos protestos contra a violência policial nos Estados Unidos.

Contaminados pela onda de manifestações contra o racismo que explodiram após o assassinato de George Floyd, jogadores realizaram minutos de silêncio pelas mortes, ergueram seus punhos antes de entrar em quadra, e usaram elementos que diziam “black lives matter” em seus uniformes. Eles foram apoiados pela organização, que potencializou as manifestações dos atletas.

“O esporte, talvez seja um dos instrumentos de divulgação de temas e de penetração mais poderosos na sociedade contemporânea”, afirma o professor da USP. “A gente avança muito se cultivar a liberdade de expressão comum dos requisitos do Estado de Direito, do regime democrático, ao ambiente esportivo.”

“As repercussões ao apoio e o repúdio à Carol, a patrulha, a tentativa de cancelamento, têm que ser combatidos em cima de um princípio que não parte do ‘eu concordo ou não’. É sobre o direito do atleta se manifestar, seja para falar contra o sexismo, contra o racismo, a favor do presidente ou contra ele”, diz Campos.

O especialista vê como positivas as manifestações de atletas como Carol e, por exemplo, a de Lewis Hamilton, que no último dia 15, no Grande Prêmio da Toscana de Fórmula 1, utilizou uma camiseta que pedia pela prisão dos policiais que assassinaram a jovem negra Breonna Taylor nos Estados Unidos. A FIA (Federação Internacional do Automóvel) disse que ele não será punido.