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20/03/2020 03:00 -03 | Atualizado 20/03/2020 08:28 -03

'Um novo vírus não respeita temperatura e calor', afirma infectologista

Clima tropical do Brasil não garante contenção do novo coronavírus, explicam especialistas.

SergeyChayko via Getty Images

As temperaturas mais quentes do Brasil não são garantia de que o novo coronavírus vá ter menor impacto e letalidade por aqui. Para especialistas ouvidos pelo HuffPost Brasil, uma vez que a sociedade não tem imunidade frente à nova epidemia, a temperatura externa pouco interfere na sua capacidade de contaminação.

“Nós estamos assistindo ao aumento de casos, e não estamos em uma época fria no Brasil. O meu entendimento é o de que um novo vírus não respeita temperatura”, defende a professora e médica infectologista da Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (EPM/Unifesp), Nancy Bellei. “Quando você tem uma população suscetível e sem imunidade, você vai ter uma taxa de ataque alta, independente da temperatura externa.”

Bellei aponta ainda que o clima externo não afeta a letalidade de um vírus. Para a infectologista, o que se sabe até agora é que o coronavírus tem uma letalidade maior que o vírus do H1N1, ou seja, tem maior capacidade de causar doença grave em grande quantidade de pacientes infectados. 

Apesar da alta capacidade de disseminação, em cerca de 80% dos casos de contaminação, os sintomas aparecem de forma leve. Menos de 5% dos casos evoluem para um quadro grave. A principal preocupação é com idosos e pessoas com doenças crônicas. Em infectados com menos de 50 anos, a taxa de mortalidade é de menos de 1%.

Rivaldo Venâncio, coordenador de vigilância em saúde e laboratórios da Fiocruz, explica que o corpo científico ainda está em fase de aprendizado de como o vírus se comporta no país. 

“Os tecidos nos quais os vírus respiratórios se multiplicam são diferentes. Existem vírus que favorecem a proliferação em ambientes mais frios. Em outros, isso é indiferente”, diz.

Para o especialista, o que muda em países mais frios é, na realidade, a transmissibilidade, e não a resistência do vírus às temperaturas externas.

“O ambiente mais frio contribui para aumentar a transmissão porque, geralmente, as pessoas ficam mais aglomeradas em locais fechados, e isso favorece a dispersão de gotículas, uma vez que as pessoas estão mais próximas”, explica.

O que se sabe sobre o comportamento de outros vírus respiratórios

Como ainda temos poucos estudos oficiais sobre o novo coronavírus, os cientistas e pesquisadores tomam como base o comportamento de outros vírus, como os influenzas, causadores da gripe, e o vírus da Sars (síndrome respiratória aguda grave), que é considerado um “primo” do novo coronavírus.

No caso da Sars, os estudos indicam que ele tem maior resistência em ambientes com temperaturas abaixo dos 30ºC, e com pouca umidade relativa do ar. Não se sabe, porém, o quanto dessas características podem ser replicadas ao novo coronavírus. 

Já as gripes causadas pelos influenzas são mais complexas. Há estudos que apontam a maior prevalência deles durante as épocas chuvosas mas, em algumas regiões do Brasil, como o Sudeste, pode haver a transmissão ao longo de todo o ano.

É consenso entre os especialistas, no entanto, que melhor do que tentar erradicar o vírus, usar das medidas não farmacológicas é a melhor estratégia para controlar a disseminação. 

Por isso, atitudes como lavar bem as mãos, praticar o distanciamento social, isolar os pacientes com sintomas e manter uma quarentena preventiva tem sido adotadas por governos e instituições de saúde. 

Como é a transmissão do coronavírus

O coronavírus, como outros vírus responsáveis por sintomas de gripe, é transmitido pelo ar ou por contato pessoal a partir das secreções contaminadas. É possível pegar por meio de tosse, catarro, saliva, toque ou aperto de mão e contato com superfícies e objetos contaminados.

O seu período de incubação, ou seja, o tempo entre o contágio e o aparecimento dos sintomas é de um a 14 dias, mas os pacientes infectados costumam apresentar sintomas em até 5 dias.

E, apesar da alta capacidade de disseminação do novo coronavírus, em cerca de 80% dos casos de contaminação, os sintomas aparecem de forma leve. Menos de 5% dos casos evoluem para um quadro grave. A principal preocupação é com idosos e pessoas com doenças crônicas. Em infectados com menos de 50 anos, a taxa de mortalidade é de menos de 1%.

Devo fazer um exame para ver se estou com coronavírus? 

De acordo com a recomendação do Ministério da Saúde, atualmente, apenas pessoas que manifestam sintomas respiratórios graves devem ser submetidas ao teste para não sobrecarregar o sistema de saúde.

Para os pacientes que apresentam manifestações clínicas mais brandas, basta o exame médico e a recomendação de tratamento de acordo com as diretrizes do profissional. 

Já para os assintomáticos, não há recomendação de teste e nem de tratamento.

Em casos eventuais de visita a países com alto índice de contágio, o médico poderá solicitar ou não o teste para o coronavírus. Já em caso de contato com pessoas infectadas, o direcionamento é observar se vai existir a manifestação de sintomas ou não.

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