ENTRETENIMENTO
11/06/2020 08:00 -03 | Atualizado 11/06/2020 08:00 -03

'Corpus Christi': Filme discute cristianismo em sociedade que se recusa a perdoar

Conversamos com o polonês Jan Komasa, diretor do finalista ao Oscar de Filme Internacional que estreia em streaming no Brasil.

A história de um homem que finge ser padre pode parecer algo bem incomum em boa parte do mundo, mas casos como esse não são raros na Polônia. ”É um fenômeno social muito estranho que tem a nossa cara”, disse Mateusz Pacewicz ao site polonês Notes Form Poland, jornalista que cobriu uma dessas histórias e que acabou transformando-a no roteiro de um filme que seria um dos finalistas ao Oscar de Filme Internacional em 2020.

Corpus Christi, que está disponível em streaming no Brasil desde o dia 4 de junho, no Cinema Virtual, surpreende em todos os aspectos. Não apenas por sua história peculiar e o “conto de fadas” de sua trajetória até o Oscar, mas também por seu tom ao mesmo tempo provocador e sensível, pela direção precisa do cineasta Jan Komasa e, principalmente, pela atuação impressionante de Bartosz Bielenia como o protagonista Daniel.

Na trama, Daniel (Bielenia) é um jovem de 20 anos que experimenta uma transformação espiritual enquanto cumpre sentença em uma instituição correcional de jovens infratores. Ele quer se tornar padre, mas isso é impossível por causa de sua ficha criminal. Ao sair da instituição, ele é enviado a uma oficina de carpintaria em uma pequena vila no interior da Polônia, Mas como ele gosta de se vestir de padre, acidentalmente assume a paróquia local. A chegada do jovem e carismático pregador se transforma em uma oportunidade para a comunidade iniciar um processo de cura após uma grande tragédia.

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Bartosz Bielenia como o jovem padre impostor Daniel, uma alma em conflito que decide ajudar uma comunidade de luto.

“Os produtores não queriam ele [Bartosz] como protagonista, mas eu bati o pé”, conta Komasa, que entre outros assuntos, conversou com exclusividade com o HuffPost sobre seu poderoso longa que venceu 2 prêmios na última edição do Festival Internacional de Cinema de Brasília, agora em abril de 2020.

HuffPost: Você fez algumas mudanças bem radicais em relação à história contada na primeira versão do roteiro, colocando o protagonista como um interno de uma instituição para jovens infratores e até o acidente trágico que acontece antes da chegada dele no vilarejo onde ele substitui o padre local. Por que você fez isso?

Jan Komasa: Eu achei que o roteiro precisava de algo mais urgente, elementos que fizessem as questões levantadas pela trama ficarem mais à flor da pele, com uma pegada mais forte e sombria, com uma carga emocional maior. Queria que a história fosse do inferno para o céu. O roteiro original era mais tímido. Mateusz [Pacewicz], o roteirista, tinha muito receio de cair no exagero, mas eu sempre procuro por algo mais dramático.

Por isso, uma das minhas grandes discussões com Mateusz era fazer com que o protagonista tivesse assassinado alguém no passado. Mas não queria perder tempo explicando o caso para o espectador. Nós sabemos toda a história dos personagens em detalhes e o público não precisa saber de tudo, mas precisam saber alguma coisa sobre. Como saber de onde vem a culpa de Daniel. Outra coisa que eu acrescentei foi o [personagem] Bonus [Mateusz Czwartosz], que o Daniel conhece a instituição para jovens infratores. Ele serve como a materialização dos demônios internos de Daniel, algo que estará lá sempre para lembrá-lo de seu passado criminoso e que ele deve enfrentar.

Eu procurava por algo mais profundo dentro do tema ‘quem eu sou realmente?’. O fato de Daniel se tornar um padre poderia soar engraçado. Um cara que vai até um pequeno vilarejo no interior da Polônia e engana pessoas inocentes... Mas eu queria algo mais surpreendente. Com mais camadas. Claro que há algo de engraçado até em uma situação como essa, mas quando você passa a ver a trajetória de Daniel, você vê que ele é a representação de cada um de nós que precisa encontrar o seu caminho mas está cheio de dúvidas. Que não importa o quanto você quer encontrar o seu caminho, essa jornada não é nunca fácil.

Acho que é por isso que as pessoas acabam se identificando com o protagonista, mesmo que ele e suas questões particulares não têm nada a ver com você. Duvido que a maioria dos espectadores cometeram um homicídio no passado, mas de alguma forma eles entendem a luta de Daniel e torcem por ele.

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O cineasta polonês Jan Komasa.

Por que você escolheu Bartosz Bielenia para interpretar Daniel? Ele está incrível no filme!

Bartosz é um ator muito conhecido no teatro polonês. Ele é muito talentoso, mas nunca teve um papel como protagonista em um filme. Ele normalmente fazia papéis de vilão.O rosto dele é tão impactante, com aqueles olhos penetrantes, até ameaçadores. Na TV e no cinema ele geralmente interpreta psicopatas, serial killers. Tive de brigar muito para ter ele como protagonista.

Os produtores queriam Tomasz Zietek [que interpreta o personagem Pincze no filme] rcomo Daniel. Eles tinham medo de ter Bartosz como o ‘herói’. Tomasz Zietek é uma grande estrela na Polônia e era a primeira escolha dos produtores. Mas eu bati o pé. Acho que Tomasz seria ótimo como Daniel, mas Bartosz tem algo nele que é muito marcante. Sabe aquela pessoa que quando você conhece, todo mundo fala sobre ele? Ele é uma figura. Você sempre lembra dele. Daniel é um personagem muito especial e eu queria alguém com características únicas para interpretá-lo.

Bartosz é uma pessoa muito inteligente e culta, além de ser um ator muito talentoso. Ele sabe como encontrar aquilo que queríamos para Daniel. Ele sabia exatamente o que teria de fazer para incorporar Daniel. Ele mesmo já é uma pessoa bem particular. É até difícil falar com ele, porque ele não tem nem smartphone. Ele usa um daqueles celulares Nokia antigos [risos]. Ele é uma pessoa comprometida com seus ideais e muito carismático. Ele tem uma alma revolucionária. Por isso era a escolha perfeita para o papel.

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"O rosto dele é tão impactante, com aqueles olhos penetrantes, até ameaçadores", diz o diretor Jan Komasa sobre Bartosz Bielenia.

A luz tem um papel muito importante no filme. Ele começa bem escuro, com Daniel ainda preso, e vai ficando cada vez mais claro com a transformação do personagem. Mas aí, bem perto do final, ele volta à escuridão em uma cena com uma briga bem violenta, mas Daniel é jogado para uma luz muito forte que invade a tela até com uma certa brutalidade. O que você quis passar com aquela sequência específica e tão decisiva para a história?

Na verdade, aquela cena foi um acidente [risos]. Eu não gosto de improvisações. Gosto de que esteja tudo muito bem definido antes de filmar. Nessa cena em particular, eu queria fechar o filme com uma tomada longa dele brigando, unindo a primeira e a última sequência do filme. Ensaiamos essa cena por um mês. Eu não queria cortar a cena, queria que ela fosse contínua e aí aconteceu o ‘acidente’. A Luz estava preparada para o corredor interno onde se passava a cena, que era bem escuro, mas quando a porta para fora do prédio é aberta em um movimento brusco dos atores, a luz natural tomou conta de tudo.

Eu quis refilmar, mas Piotr [Sobocinski, diretor de fotografia] gostou do resultado e me convenceu que que aquele ‘erro’ passava exatamente a ideia que queríamos com aquela cena. Tanto que aquela exposição de luz vai diminuindo na última tomada. Não era o que eu planejava, mas depois de refletir um pouco, percebi que o cinema também é feito desses ‘felizes acidentes’. Por meio deles você encontra uma verdade que talvez não possa encontrar em uma cena milimetricamente planejada. Diretores não têm de procurar por perfeição, mas pela verdade. Esse ‘erro’ serviu muito bem ao propósito de contar a jornada do protagonista, de seu renascimento.

Como foi ver o seu filme concorrendo ao Oscar de Filme Internacional?

Foi incrível. Eu não esperava por aquilo. Não tivemos muitas oportunidades para mostrar nosso filme aos membros da Academia [de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood]. O filme ainda nem tinha muitas críticas publicadas em veículos de peso nos Estados Unidos. A crítica da Variety saiu depois até. Comparando nosso filme com alguns dos favoritos a ser indicados, eu tinha certeza que não seríamos selecionados para a lista final. Nossa distribuidora nos EUA era bem pequena e não fizemos praticamente nada de campanha. Foi uma surpresa total!

Só de estar na pré-lista do Oscar já foi uma grande vitória. Agora, ter conseguido ficar entre os finalistas foi especial. Eu nem soube na hora do anúncio porque naquele momento estava em um hospital de Los Angeles tratando de pedras no rim. Nem acreditei quando me falaram. Achei que era brincadeira. Ter um filme entre os finalistas no Oscar te dá um grande status, marca a sua carreira, mas, no final, o mais legal de tudo foi a aventura de estar lá em Hollywood e ter tido a oportunidade de conhecer cineastas e pessoas incríveis como Bong Joon-Ho, Pedro Almodóvar e todos os outros diretores de filmes que concorriam na categoria.

“Os produtores não queriam ele como protagonista, mas eu bati o pé”, conta Komasa, que entre outros assuntos, conversou com exclusividade com o HuffPost Brasil sobre seu poderoso longa que venceu dois prêmios na última edição do Festival Internacional de Cinema de Brasília, agora em abril de 2020.

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