MULHERES
01/03/2020 02:00 -03 | Atualizado 01/03/2020 09:35 -03

Harvey Weinstein é um estuprador condenado. Saiba por que essas palavras têm importância

“Minha confiança de que as pessoas vão acreditar nas mulheres quando elas fizerem denúncias foi renovada”, diz Caitlin Delaney, que também rompeu o silêncio sobre Weinstein.

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Harvey Weinstein arrives at a Manhattan courthouse as jury deliberations continue in his rape trial, Monday, Feb. 24, 2020, in New York. (AP Photo/John Minchillo)

Harvey Weinstein é um estuprador.

Não um suposto estuprador. Não um magnata de Hollywood que enfrenta acusações de estupro e agressão sexual. Não inocente até prova em contrário. Um estuprador. Um criminoso sexual. Um homem algemado.

Na segunda-feira (24), depois de cinco dias de deliberações, um júri considerou Weinstein culpado de estupro em terceiro grau e ato sexual criminoso em primeiro grau. Essa decisão confirmou que os jurados acreditaram no depoimento de Mimi Haleyi, que contou ao tribunal como Weinstein arrancou um absorvente íntimo de seu corpo e fez sexo oral nela à força em 2006, e de Jessica Mann, que contou ao júri que Weinstein a estuprou em seu quarto de hotel quando ela o convidou para uma reunião no café da manhã para discutir assuntos profissionais. Weinstein foi absolvido de duas acusações de agressão sexual predatória e de estupro em primeiro grau.

Weinstein aguardará o anúncio de sua sentença, em 11 de março, numa cela.

A atriz Larissa Gomes, uma das quase 20 mulheres a terem rompido o silêncio sobre Weinstein que falaram à imprensa na tarde de segunda-feira, estava no carro, levando seu filho para a pré-escola, quando ficou sabendo do veredito. Ela disse que ficou estarrecida quando viu o alerta de notícia em seu celular: “Culpado”.

“Fiquei extasiada ao ler essa palavra”, ela contou.

Apesar de todas se dizerem frustradas porque os jurados não consideraram Weinstein culpado de todas as acusações, muitas das mulheres que romperam o silêncio ecoaram a reação de Gomes, citando o tipo de registro permanente criado por um veredito de culpado.

“Harvey Weinstein agora é um estuprador condenado.”― Zoe Brock

“Harvey Weinstein, condenado por estupro.” ― Rosanna Arquette

“Ele é um predador sexual condenado. Vai cumprir no mínimo cinco anos de prisão, e isso é só o começo.” ― Sarah Ann Masse

“Ele está no presídio de Rikers Island. Por uma vez na vida, não vai estar acomodado confortavelmente. Por uma vez na vida vai saber como é sentir o poder apertando seu pescoço.” ― Rose McGowan

 

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A ex-atriz Jessica Mann, à direita, chega ao Tribunal Criminal de Manhattan em 31 de janeiro para depor no julgamento de Harvey Weinstein.

Em um e-mail, a roteirista e atriz Jasmine Lobe destacou para mim a importância da linguagem, especialmente no que diz respeito a Weinstein.

“Harvey Weinstein agora é um estuprador condenado e é assim que ele será lembrado. Esse será seu legado”, ela disse. “Noventa e oito por cento dos acusados de estupro nunca chegam a ser levados a julgamento e continuam a ser ‘supostos’.”

Ela estava em casa quando a notícia foi divulgada, trocando mensagens com outra vítima que rompeu o silêncio. Elas estavam preparando-se psicologicamente para o pior, mas o pior não aconteceu. “Passei muito tempo torcendo para este dia chegar, mas não pensei que eu chegaria a ver isso acontecer”, disse Lobe. “Nossas vozes foram ouvidas. Acreditaram em nós.”

As palavras têm poder. Elas moldam como enxergamos o mundo, definem a quem damos nome, quem deixamos se desvanecer no segundo plano. Nossos ceticismos e vieses muitas vezes estão embutidos nas palavras em que escolhemos enquadrar os fatos.

Antes do veredito de culpado, Weinstein estava sendo descrito – pelo menos na imprensa (por bons motivos) – como um suposto estuprador, e suas vítimas, como suas acusadoras. Apesar do fato de mais de cem mulheres terem apresentado relatos de terem sido abusadas por Harvey Weinstein – e de muitos desses relatos terem sido apresentados e verificados independentemente ―, algo que deveria ser o bastante para prejudicar a reputação até mesmo de uma figura poderosa como Weinstein, as vítimas de violência sexual estão tão acostumadas a serem ignoradas, atacadas e tachadas de culpadas que a confirmação por parte da justiça criminal ainda tem um valor especial.

Para muitas vítimas, é um alívio saber que, aos olhos da lei, Harvey Weinstein é um abusador sexual. Um estuprador condenado. A sensação é que a luz chegou ao fim de um túnel muito longo e escuro. É uma sensação de que as pessoas acreditaram nelas.

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Harvey Weinstein foi condenado na segunda-feira por estupro e agressão sexual.

“Dezenas e mais dezenas de pessoas apresentaram relatos semelhantes sobre o comportamento de Weinstein”, disse Kristen Houser, especialista em agressão sexual e ex-responsável por assuntos públicos do Centro Nacional de Combate à Violência Sexual. “E agora temos um jurado que diz que essas acusações resistiram depois de submetidas à prova mais rígida da América.”

Dispensar o qualificativo de “suposto” explicita o que já se sabia: que Harvey Weinstein é um estuprador.

Ativistas destacam que é muito complicado vincular a legitimidade de uma denúncia de estupro ou violência sexual a um veredito de culpado em um tribunal penal, algo que acontece em menos de 1% dos casos de estupro. 

 
Minha confiança em que as pessoas vão acreditar nas mulheres quando elas fazem denúncias foi renovada. Para mim, é como se o céu tivesse ficado azul de novo. Caitlin Delaney, uma das mulheres que romperam o silêncio sobre Weinstein.Caitlin Delany

“Ainda estamos depositando muita esperança em um sistema de justiça criminal que precisa de reformas reais para poder garantir justiça para as vítimas”, disse ao HuffPost a diretora-executiva da UltraViolet, Shaunna Thomas. “Me dá grande satisfação que as mulheres que romperam o silêncio em torno de Weinstein puderam receber esse veredito. Tenho consciência de que isso não é dado à grande maioria das vítimas.”

Apesar dessa realidade, porém, para muitas das mulheres que romperam o silêncio, ver seu algoz sendo forçado a assumir a responsabilidade mesmo apenas parcialmente por seus atos é revolucionário. Elas enxergam isso como uma vitória para todas as vítimas, mesmo as que nunca chegaram a ser ouvidas em um tribunal.

A atriz Jessica Barth, uma das mulheres que romperam o silêncio e cofundadora da organização Voices in Action, disse que ouvir o veredito na segunda-feira coroou de maneira surreal seus anos de luta.

“Minha confiança de que as pessoas vão acreditar nas mulheres quando elas fizerem denúncias foi renovada”, disse a atriz Caitlin Delaney, uma das mulheres que romperam o silêncio sobre Weinstein. “Para mim, é como se o céu tivesse ficado azul de novo.”

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.

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