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26/09/2020 05:00 -03 | Atualizado 30/09/2020 13:33 -03

Além do grito de Carol Solberg: Por que o esporte está longe de ser politicamente neutro

Procuradoria do STJD do vôlei apresentou denúncia contra jogadora de vôlei Carol Solberg, que gritou 'fora Bolsonaro!'. Tribunal pede que ela seja condenada pela penalidade máxima.

Na última semana, a jogadora de vôlei de praia Carol Solberg, 33 anos, ganhou holofotes inesperados após protestar contra o presidenteJair Bolsonaro, logo depois de vencer a decisão pelo terceiro lugar e ganhar a medalha de bronze na etapa de Saquarema (RJ) da modalidade. Ao final de entrevista ao SporTV, ela gritou: “só para não esquecer: fora, Bolsonaro!”.

O ato, que viralizou nas redes sociais, gerou não só uma nota de repúdio da CBV (Confederação Brasileira de Voleibol), mas também forte reação dos apoiadores do presidente, produção de notícias falsas sobre a atleta e, sobretudo, trouxe de volta a discussão sobre a relação entre política, esporte e liberdade de expressão dos atletas.

É unânime entre os especialistas ouvidos pela reportagem que o ambiente esportivo não é neutro e tem um potencial de comunicação significativo que o transforma em uma plataforma para discutir questões sociais - seja por meio de manifestações políticas ou de discussões identitárias, por exemplo. 

“Existe uma falsa sensação de que o ambiente dos esportes é como se fosse um ambiente de pureza, de alegrias, de neutralidade, que de alguma forma os atletas se despem da vida pública e política para ocupar aquele espaço. E que hoje existe um esforço para enxergar o esporte como apolítico. Isso não é verdade. Desde que o esporte existe, há manifestações políticas ligadas a ele”, pontua ao HuffPost a pesquisadora e historiadora do esporte Aira Bonfim. 

A tensão entre o posicionamento político e ambientes esportivos não é de hoje. Nas últimas décadas, outros atletas também foram protagonistas em momentos políticos do País como, por exemplo, pedir pelo fim da ditadura militar e exigir mudanças em modalidades.

“Existe uma dificuldade de reconhecer o atleta como trabalhador, como alguém que, de alguma forma, está executando serviço e tem a liberdade de questionar esse lugar político”, pontua Bonfim. O que mudou é a forma de comunicar e dialogar sobre esses exemplos, essas situações. Com as redes, isso explode.”

A especialista lembra a história da corredora Iranice Rodrigues que, em 1967, no contexto da ditadura militar, coordenou uma greve contra o COB (Comitê Olímpico Brasileiro), que estabelecia uma série de restrições à participação de mulheres.

Mesmo obtendo bons índices, sendo recordista brasileira dos 400 e dos 800 metros, a atleta correu o risco de ser proibida de disputar os Jogos Pan-Americanos daquele ano, em Winnipeg, no Canadá. Na época, a prova dos 800 metros era considerada “desgastante demais para o corpo da mulher.”

“É muito poderoso pensar esse lugar que um atleta ocupa, e de pensar que existe um interesse que seja melhor ele ficar calado do que se colocar. Sendo que é mais produtivo que eles falem, se posicionem. Seja para apoiar um presidente ou para se manifestar contra o governo”, diz a historiadora.

Andrea Kareth via Getty Images
Maria Antonelli do Brasil e Carolina "Carol" Solberg Salgado do Brasil comemoram um ponto durante a partida semifinal em do "Volleyball World Tour Major Series", realizado em Viena, na Áustria.

Para Flávio de Campos, doutor em história social e professor da USP (Universidade de São Paulo), o ambiente esportivo, atualmente, está em disputa, assim como outras áreas da sociedade. “Antes de enxergar um atleta de uma modalidade esportiva, de uma seleção, de um clube, etc., é preciso enxergar um cidadão, que tem direitos e responsabilidades. E esse cidadão tem o direito de se manifestar politicamente.”

É o exercício deste direito que está acontecendo na NBA (National Basketball Association), liga de basquete norte-americana, frente aos protestos contra a violência policial nos Estados Unidos.

Contaminados pela onda de manifestações contra o racismo que explodiram após o assassinato de George Floyd, jogadores realizaram minutos de silêncio pelas mortes, ergueram seus punhos antes de entrar em quadra, e usaram elementos que diziam “black lives matter” em seus uniformes. Eles foram apoiados pela organização, que potencializou as manifestações dos atletas.

USA Today Sports / Reuters
Membros do New Orleans Pelicans e do Utah Jazz ajoelham-se em torno do logotipo do "Black Lives Matter" na quadra durante o hino nacional, nos Estados Unidos.

“O esporte, talvez seja um dos instrumentos de divulgação de temas e de penetração mais poderosos na sociedade contemporânea”, afirma o professor da USP. “A gente avança muito se cultivar a liberdade de expressão comum dos requisitos do Estado de Direito, do regime democrático, ao ambiente esportivo.”

“As repercussões ao apoio e o repúdio à Carol, a patrulha, a tentativa de cancelamento, têm que ser combatidos em cima de um princípio que não parte do ‘eu concordo ou não’. É sobre o direito do atleta se manifestar, seja para falar contra o sexismo, contra o racismo, a favor do presidente ou contra ele”, diz Campos.

O especialista vê como positivas as manifestações de atletas como Carol e, por exemplo, a de Lewis Hamilton, que no último dia 15, no Grande Prêmio da Toscana de Fórmula 1, utilizou uma camiseta que pedia pela prisão dos policiais que assassinaram a jovem negra Breonna Taylor nos Estados Unidos. A FIA (Federação Internacional do Automóvel) disse que ele não será punido.

Jennifer Lorenzini / Reuters
"Prenda os policiais que mataram Breonna Taylor", diz camiseta de Lews Hamilton, durante Grande Prêmio da Toscana de Fórmula 1.

“É óbvio que quando um atleta chega em um patamar da sua carreira, ele adquire um status de ídolo na sua modalidade esportiva e, portanto, é menos vulnerável a essa intimidações, perseguições”, diz Campos. “Um atleta como o Neymar, por exemplo, também tem mais condições de se posicionar. E seria muito bacana que ele pudesse fazer isso de forma mais contundente.”

No Brasil, segundo os especialistas, o embate não diz respeito apenas à liberdade de expressão: também envolve um jogo de forças nas confederações esportivas, que tem laços com o governo federal. Em geral, cargos de poder nessas organizações costumam se atreladas à setores políticos do governo.

“Aqui no Brasil eu sinto que tem uma organização mais centralizadora, em especial dessas organizações que vão pôr em xeque essas manifestações políticas como temos visto nos Estados Unidos”, aponta Bonfim. “Se for à favor tudo bem, mas se for uma narrativa que confronta a opinião dessa organização, isso pode virar um grande problema para esses atletas.”

Um atleta pode se expressar politicamente?

Reprodução
Momento em que Carol Solberg grita 'fora Bolsonaro' e que viralizou nas redes sociais.

Após a repercussão de sua fala, Carol precisou esclarecer em seu Instagram que não é beneficiária do Bolsa Atleta e também não é patrocinada pelo Banco do Brasil, como divulgado por terceiros nas redes sociais em meio às críticas feitas a ela.

O Bolsa Atleta é uma iniciativa do Governo Federal, que tem o objetivo de formar uma geração de atletas com potencial de representar o Brasil. Cada atleta, de acordo com modalidade e experiência, recebe um valor por mês para que tenha as condições mínimas para participar ativamente de sua modalidade.

No dia do jogo em Saquarema (RJ), Carol usava um top com a marca do banco estatal porque ele é o patrocinador do Circuito Brasileiro de Vôlei de praia, e não da atleta. A jogadora só tem um patrocinador, o isotônico Jungle.

“Esse grito não foi premeditado, estava no estômago, preso na boca. Recebi, sim, ataques e mensagens de apoio de amigos, familiares. Muitos estão preocupados comigo, desde minha integridade física à minha carreira, o que mostra como esse governo promove o ódio entre as pessoas”, disse em entrevista à Folha de S. Paulo.

Em comunicado, a CBV afirmou que “tomará todas as medidas cabíveis para que fatos como esses, que denigrem a imagem do esporte, não voltem mais a ser praticados”.

“Aproveitamos ainda para demonstrar toda nossa tristeza e insatisfação, tendo em vista que essa primeira etapa do CBVP Open 2020/2021, considerada um marco no retorno das competições dos esportes olímpicos, por tamanha importância, não poderia ser manchada por um ato totalmente impensado”, disse a confederação.

A reação da entidade ao protesto da atleta também passou a ser questionada nas redes sociais. Fãs do vôlei e apoiadores de Carol compararam a postura da entidade de agora, cujo maior patrocinador é o Banco do Brasil - seu apoiador desde 1991 -,  com a que tomou diante do ato de jogadores da seleção masculina de vôlei em 2018.

Em meio à eleição presidencial, Wallace e Maurício Souza fizeram o número 17 com os dedos em uma foto durante o Campeonato Mundial de vôlei de quadra, em alusão ao número da sigla do então candidato à Presidência da República, Jair Bolsonaro. 

O registro com o ato da dupla chegou a ser republicado pela CBV em sua conta no Instagram; na ocasião, a entidade deletou a publicação e emitiu uma nota em que dizia repudiar “qualquer tipo de manifestação discriminatória, seja em qualquer esfera, e também não compactua com manifestação política”.

“Porém, a entidade acredita na liberdade de expressão e, por isso, não se permite controlar as redes sociais pessoais dos atletas, componentes das comissões técnicas e funcionários da casa. Neste momento, a gestão da seleção irá tomar providências para não permitir que aconteçam manifestações coletivas”, finaliza a nota.

Segundo o UOL, a CBV tem 85% da sua receita atrelada ao governo federal, seja por investimento direto ou por meio do Banco do Brasil. Portanto, há uma dependência da confederação de decisões governamentais para sobreviver.

Pelo balanço da CBV de 2019, informa o UOL, a sua receita total foi de R$ 89,5 milhões. Os valores são parecidos com outros anos, mesmo antes da eleição de Bolsonaro.

A procuradoria do Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD) do vôlei colocou prazo até a próxima sexta-feira (2) para decidir se denuncia a jogadora com base em dois artigos do CBJD (Código Brasileiro de Justiça Desportiva). 

O artigo 191, que versa sobre deixar de cumprir o regulamento da competição, e o 258, que diz respeito a assumir qualquer conduta contrária à disciplina ou à ética desportiva não tipificada pelas demais regras do código.

No termo de participação do Circuito Brasileiro de Vôlei de Praia 2020/2021, citado pela CBV em nota, há um anexo ao regulamento do torneio em que os jogadores se comprometem “a não divulgar, através dos meios comunicações, sua opinião pessoal ou informação que reflita críticas ou possa, direta ou indiretamente, prejudicar ou denegrir a imagem da CBV e/ou os patrocinadores e parceiros comerciais”.

Caso seja comprovado o descumprimento desta regra, o atleta pode ter sua participação vetada pela CBV na próxima etapa do circuito.

Na noite da segunda-feira (28), a procuradoria do STJD denunciou a jogadora Carol Solberg ao tribunal com base em dois artigos do Código Brasileiro de Justiça Desportiva. A denúncia pede que ela seja condenada pela penalidade máxima em cada um dos dois artigos nos quais ela foi denunciada. Assim, a atleta pode levar uma multa de R$ 100 mil e seis torneios de suspensão.

Atletas foram às ruas por Diretas Já e pelo fim da ditadura

Amanda Perobelli / Reuters
Manifestantes seguram cartazes com fotos das vítimas da ditadura militar em um protesto contra o 55º aniversário do golpe militar brasileiro de 1964.

A ex-jogadora olímpica de vôlei Vera Mossa, 55 anos, estava presente nas marchas pelas Diretas Já, que aconteceram entre 1983 e 1984. “Eu fui para o palanque junto com a Isabel [Salgado, também ex-jogadora de vôlei e hoje técnica de vôlei de praia], no Rio, na Candelária. E isso foi divulgado, mas não era como é hoje, com as redes sociais, etc”, diz em conversa com o HuffPost. “De alguma forma, a gente sentiu que era nossa obrigação participar daquele momento. E não iríamos deixar de participar porque éramos jogadoras.”

Vera e Isabel, diferente de Carol Solberg, não se manifestaram dentro de quadra e também não viralizaram nas redes sociais, mas também se colocaram politicamente ao ir para a rua. Hoje, elas fazem parte do grupo chamado “Esporte Pela Democracia” que, desde maio deste ano, reúne mais de 60 atletas e ex-atletas como Walter Casagrande, Ana Moser, Raí e Guga.

O movimento foi criado logo após as manifestações contrárias ao governo Bolsonaro ganharem corpo no Rio de Janeiro e em São Paulo. Organizada pelas torcidas que se denominam “antifascistas” de times de futebol como Flamengo e Corinthians, em protestos aconteceram em plena pandemia.

Nas redes sociais, o movimento saiu em defesa de Carol. “Em seu legítimo direito de se expressar politicamente, a atleta Carol Solberg, do vôlei de praia, terminou entrevista ao SporTV com um “Fora Bolsonaro!’”, diz a nota.

O comunicado diz que a CVB utilizou “um inaceitável ‘denegrir’, um termo racista que deve ser fortemente repudiado” e que “a única medida cabível à CBV é seu silêncio em respeito à liberdade de expressão”.

Vera acredita que “tudo é política” e que a reação tanto de torcedores, quando do público e da própria CBV (Confederação Brasileira de Vôlei), mostra que, no País, “estamos vivendo um momento muito complicado” de polarização.

No esporte, a gente aprende a respeitar o outro. Eu acredito que isso é absolutamente democrático. Dentro de uma equipe existem pessoas que pensam completamente diferente, mas que buscam a mesma coisa.Vera Mossa, ex-jogadora olímpica de vôlei

“As pessoas têm o direito de se posicionar individualmente, elas não têm que ficar submetidas a uma ordem maior, isso é censura”, diz. “Com relação à Carol, o que ela fez, eu acho que foi uma manifestação espontânea. Se ela tivesse gritado, ‘viva Bolsonaro’, alguém ia fazer alguma coisa?”, questiona.

A Comissão de Atletas do vôlei de praia, órgão que representa jogadores da modalidade na CBV, saiu em defesa da postura da entidade no caso. Em nota divulgada no dia 21, a comissão, que é liderada pelo campeão olímpico de vôlei Emanuel Rego, defendeu a proibição para que atletas opinem politicamente.

“No esporte, a gente aprende a respeitar o outro. Eu acredito que isso é absolutamente democrático. Dentro de uma equipe existem pessoas que pensam completamente diferente, mas que buscam a mesma coisa”, pontua Vera. “Muitos atletas se sentem silenciados. Esse grito da Carol serviu para todo mundo repensar. Um atleta não pode viver acuado dessa forma.”

Em junho, Emanuel Rego foi exonerado do cargo que ocupava na secretaria de Esportes, do Ministério da Cidadania. O ex-jogador era responsável por Esportes de Alto Rendimento na secretaria do governo Bolsonaro.

Hoje, ele é um dos candidatos a vice-presidente do COB (Comitê Olímpico do Brasil) na chapa com Rafael Westrupp, atual presidente da CBT (Confederação Brasileira de Tênis). A eleição para o comando da organização está prevista para o próximo dia 7 de outubro.