MULHERES
19/01/2020 14:18 -03 | Atualizado 03/02/2020 12:38 -03

'Quanto mais Harvey Weinstein nos intimidava, mais ficávamos inspiradas a publicar a verdade'

Megan Twohey, uma das jornalistas que expôs os crimes de Harvey Weinstein no The New York Times, em 2017, fala ao HuffPost Brasil. Julgamento teve início em NY em 6 de janeiro.

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A jornalista Megan Twohey é uma das responsáveis por reportagem que expõs abusos sexuais cometidos por Harvey Weinstein, ex-magnata de Hollywood.

Em 2017, as mulheres tinham conquistado mais poder do que nunca. Em apenas um ano de trabalho era possível para uma mulher de 30 e poucos anos ganhar mais dinheiro do que todas as suas ancestrais tinham ganhado em suas vidas inteiras somadas. Mas elas continuavam a sofrer assédio sexual. No mesmo ano, as jornalistas Jodi Kantor e Megan Twohey, do The New York Times, publicaram uma reportagem que sacudiu Hollywood ― e o mundo ― ao revelar os crimes sexuais cometidos pelo ex-magnata Harvey Weinstein, e desencadear o que hoje é considerado o maior escândalo sexual de Hollywood.

“Naquela época, nós sabíamos que estávamos comprometidas com a verdade, mas não pensávamos em nenhum tipo de repercussão específica que a história teria. E, então, em questão de dias, nossos telefones e nossos e-mails estavam lotados com depoimentos de mulheres que estavam contando suas histórias de assédio e abuso sexual”, conta a jornalista Megan Twohey, em entrevista por telefone ao HuffPost Brasil. 

Megan, ao lado de Jodi, é responsável por expor publicamente os casos de abuso sexuais cometidos por Weinstein e, como consequência, inflamar o movimento Me Too (Eu Também, em tradução para o português), que é capitaneado por mulheres não só nos Estados Unidos e na indústria do entretenimento ― mas no mercado de trabalho como um todo e mundo afora.

No livro  Ela disse - Os bastidores da reportagem que impulsionou o #MeToo (Companhia das Letras, 2019), escrito a quatro mãos, as repórteres do NYT detalham os bastidores da investigação que levou cerca de 80 mulheres a denunciarem Weinstein e a quebrarem a chamada “cultura do silêncio”, o que levou ao julgamento do ex-produtor de filmes como Pulp Fiction e O Paciente Inglês. Desde o último dia 6 de janeiro, a Suprema Corte de Nova York discute o caso. A expectativa é de que a sentença saia em março deste ano.

“O livro traz os leitores para a investigação”, explica Twohey. Ao HuffPost, ela fala sobre os desafios de lidar com o caso de Weinstein, expectativas para o julgamento e explica que decidiu escrever a quatro mãos sobre os bastidores  “para que leitores pudessem acessar os primeiros telefonemas extra-oficiais com atrizes, os momentos em que conseguimos obter registros confidenciais da empresa de Weinstein e até o próprio invadir o Times um dia antes da publicação da reportagem.”

Em 2017, mais de 80 mulheres, incluindo atrizes consagradas como Rose McGowan, Angelina Jolie, Mira Sorvino, Asia Argento e Gwyneth Paltrow, denunciaram o ex-produtor por assédio, agressão sexual e estupro. O julgamento acontece mais de dois anos após a explosão do escândalo.

Porém, mesmo com a gravidade e proporção do caso, Weinstein será julgado apenas por dois casos mais recentes ― considerando que os demais crimes, cometidos entre os anos 80 e 90, já prescreveram.

“Eu acho que todo mundo tem altas expectativas sobre este julgamento”, aponta Twohey. “O time de advogados dele está argumentando que ele é a vítima, que isso irá mostrar que o Me Too foi muito longe e que as pessoas o acusaram injustamente de má conduta sexual”, diz. 

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Jodi Kantor e Megan Twohey, as autoras da reportagem que lançou luzes sobre conduta predadora de Harvey Weinstein.

Mimi Haleyi, ex-assistente de produção de Weinstein, alega que, em julho de 2006, o fundador da Miramax fez sexo oral nela sem seu consentimento. A segunda vítima, que não teve sua identidade revelada, alega que, em março de 2013, foi estuprada pelo ex-produtor em um quarto de hotel em Nova York. 

Inicialmente, o julgamento estava previsto para setembro de 2019, mas foi adiado após Annabella Sciorra, atriz da série Família Soprano, da HBO, entrar como testemunha no caso. Em artigo publicado na New Yorker, Sciorra acusa Weinstein de tê-la estuprado em sua própria casa, no ano de 1993.

Há quase três anos, conforme as denúncias se tornavam públicas, Weinstein fez inúmeras tentativas para silenciar alguns casos e desmoralizar a imprensa. Para isso, contratou investigadores particulares para desenterrar informações sobre as mulheres e as jornalistas que escreviam sobre os crimes que cometeu.

Logo no início de 2018, enquanto Weinstein já era visto como um predador sexual e havia sido demitido de sua própria empresa e retirado das principais organizações ligadas à Academia de Hollywood, as repórteres do Times, assim como Ronan Farrow, da New Yorker, receberam o Prêmio Pulitzer pelo serviço público prestado à sociedade com o trabalho realizado.

“Eu acho que, em um tempo de extrema polarização, quando a verdade pode parecer tão frágil e ilusória em um tempo em que há acusações de fake news, acho que a história de Harvey Weinstein mostra que pode haver consenso em torno de alguns fatos, e que o jornalismo pode ser importante e que pode ajudar a promover mudanças sociais”, diz. 

Depois de ser definido nos Estados Unidos como uma versão feminista de Todos os homens do presidente ― filme de 1976 baseado em livro sobre investigação de Bob Woodward e Carl Bernstein que derrubou Richard Nixon ―, Ela Disse vai virar filme pela produtra “Plan B”, de Brad Pitt, mas ainda não há previsão de estreia.

Leia a entrevista completa abaixo.

HuffPost Brasil: Harvey Weinstein tem aparecido prostrado e debilitado desde o primeiro dia do julgamento. Você acredita que esta é uma tática para criar determinada imagem?

Megan Twohey: Hm, sabe, isso é... Harvey Weinstein sofreu recentemente um acidente de carro e precisou fazer uma cirurgia na coluna, então, eu acho que é muito possível que ele esteja desconfortável e com uma incapacidade física genuína. Mas ele também é conhecido por se engajar em uma variedade de golpes publicitários para tentar gerar [uma imagem de] simpatia e boa vontade.

Como o julgamento pode mudar algumas questões para o Me Too ― e para o movimento feminista?

Eu acho que... Bom, eu não quero tentar fazer previsões, estamos ainda na fase do júri, sobre exatamente qual impacto terá. Mas toda a repercussão na história de Weinstein, desde o momento em que publicamos a nossa história até agora, ela tem sido amplificada. E agora há mais de 90 mulheres que o acusam de abuso sexual, o que ajudou a inspirar um reconhecimento global desses casos. E, então, eu não posso prever exatamente o que vai acontecer e qual será o impacto, mas eu acho que existe muita coisa para pensar. Os últimos dois anos mostraram isto: o quão grande foi o impacto deste caso.

A história de Weinstein mostra que pode haver consenso em torno de alguns fatos, e que o jornalismo pode ser importante e que pode ajudar a promover mudanças sociais.Megan Twohey
Divulgação
Capa do livro Ela disse que narra os bastidores da reportagem que derrubou Harvey Weinstein.

Weinstein empregou uma variedade de táticas de intimidação para sabotar a apuração dos casos. Houve algum momento em que você e Jodi sentiram medo?

Não. Nunca houve um momento em que nós tivéssemos medo ou consideramos não publicar a reportagem. Nós ― e isso foi algo que também estava no pensamento de todos os nossos editores aqui no New York Times ―, nunca estivemos, nem por uma vez, intimidadas por ele, apesar de todas as táticas que ele realizou para tentar barrar a nossa investigação. Por mais que ele tentasse intimidar e interferir na nossa reportagem, ficávamos mais inspiradas a publicar a verdade. Dito isso, claro, houve momentos em que nós tivemos medo pelas nossas fontes ― você sabe, Weinstein, contratou investigadores particulares que chegaram a adotar identidades falsas e entraram em contato conosco. Sem mencionar com detalhes outras táticas que ele usou para intimidar mulheres que ele temia irem à polícia. E nós nos preocupamos com elas.

Hoje enfrentamos a disseminação de notícias falsas e o constante ataque de Trump — e no Brasil, de Bolsonaro — à mídia. Como você avalia a importância do jornalismo ao trazer histórias como a que vocês publicaram sobre Weinstein?

Eu acho que, em um tempo de extrema polarização, quando a verdade pode parecer tão frágil e ilusória em um tempo em que há acusações de fake news, acho que a história de Harvey Weinstein mostra que pode haver consenso em torno de alguns fatos, e que o jornalismo pode ser importante e que pode ajudar a promover mudanças sociais. 

ASSOCIATED PRESS
Harvey Weinstein, de terno preto, com um semblante abatido e usando andador, chega à Suprema Corte de Nova York, nos Estados Unidos.

Você acredita que as denúncias e histórias de mulheres apresentadas na reportagem causaram algum tipo de mudança na maneira como o sistema jurídico e a cultura corporativa ao redor do mundo agem para silenciar vítimas e punir agressores sexuais?

Não há dúvida que o que nós vimos como o movimento Me Too foi inflamado. E não há dúvidas de que ocorreu uma mudança cultural deste então. E houve algum tipo de responsabilização que não víamos antes: homens poderosos em várias indústrias foram depostos de seus cargos após acusações de má conduta sexual contra eles. E eu acho que tem sido incrível acompanhar isso. Por tanto tempo, Jodi e eu escrevemos sobre casos de assédio e abuso sexual e nos deparamos com essa “cultura do silêncio”. Então, ver essa cultura ser quebrada e acompanhar uma série de vítimas de assédio e agressão sexual se sentindo com poder de avançar e compartilhar suas histórias é algo que nós nunca tínhamos visto.

E, ao mesmo tempo, a sua pergunta está correta, no sentido de que, houve mudanças mínimas nos sistemas: não há muitas evidências de que este tipo de questão realmente mudou no sistema legal, no sistema corporativo, nos escritórios de RH, por exemplo. E essa transformação é necessária para garantirmos mudanças duradouras e significativas que acredito que todos buscam. Por exemplo, algo que encontramos na história de Weinstein foi o fato de que ele tinha acordos secretos para silenciar mulheres que tinham acusações contra ele. Dois anos e meio depois, esses acordos continuam sendo usados para encobrir más condutas sexuais todos os dias. Sendo no caso dele ou não.

Qual foi o momento mais difícil na apuração?

No começo nós não estávamos certas de que tínhamos uma história. Existiam apenas boatos. Você sabe, existe um grande espaço entre um rumor e uma notícia. E, então, no começo nós apenas estávamos investigando dicas, rumores e então, quando fizemos mais e mais investigações, vimos um padrão de assédio sexual que estava ganhando corpo; mas mesmo quando começamos a acumular os depoimentos oficiais, juntar as peças do quebra-cabeça e acreditar que haveria uma grande história, ainda tinha muito caminho pela frente. Isso porque as pessoas ainda estavam muito relutantes em falar em “on” para nós. Também foi difícil obter documentos e, então, até quando nós percebemos que havia uma reportagem consolidada nós tínhamos muito trabalho a fazer para chegar até o ponto de publicá-la. 

Nós começamos essa investigação com um longo histórico que trabalhou para trazer a voz e a experiências das mulheres para as páginas dos jornais.Megah Twohey
Rodin Eckenroth via Getty Images
A jornalista Megan Twohey em evento realizado em 2017, na Califórnia.

O livro é comparado a uma versão feminista do aclamado Todos os Homens do Presidente, de Bob Woodward e Carl Bernstein sobre o caso Watergate. Como você vê esse paralelo? E por que você e Jodi decidiram escrever um livro sobre os bastidores da reportagem?

Nós rapidamente percebemos que a primeira história que escrevemos em outubro de 2017 sobre o caso foi capaz de nos conectar com outras nuances da história deste poderoso produtor e suas décadas de má conduta sexual e como isso guiou essa indústria. E nós, enquanto escrevemos o livro, nos tornamos capazes de apresentar informações adicionais e disponibilizamos muito mais peças do quebra-cabeça e da máquina de silêncio que estava estabelecida para silenciar as mulheres. Uma delas é a de que as advogadas que trabalhavam com Weinstein trabalharam para encobrir a verdade. E também nos foi permitido mostrar como os indivíduos dentro das grandes corporações ajudam a encobrir e se tornam cúmplices de abusos. Então, penso que por causa do movimento Me Too ter ganhado um significado tão grande e tão importante para essas pessoas, nós realmente queríamos que as pessoas pudessem ter acesso a todos os detalhes, para mostrar a elas o que acontecia. E muito de nossa investigação aconteceu em segredo e em conversas extra-oficiais. Nós trabalhamos arduamente nesse livro para trazer muitos depoimentos para um lugar oficial. Para os leitores poderem, de fato, entrarem nessa jornada investigativa com a gente. O livro traz os leitores para a investigação. Ter um relato completo e amigável de tudo aquilo que nós testemunhamos. Para que eles possam estar lá por meio dos relatos dos primeiros telefonemas extra-oficiais com atrizes, nos momentos em que conseguimos obter registros confidenciais da empresa de Weinstein e até o próprio invadir o The New York Times um dia antes da publicação da reportagem.

Outra razão pela qual nós escrevemos o livro é porque não seria ― mesmo não escrevendo o livro ― fácil para nós parar no momento em que nós publicamos a primeira história e ajudamos a expor Weinstein, que colaborou tanto para inflamar o Me Too. Nós realmente nos esforçamos até o fim com a nossa reportagem e escrita e continuamos seguindo, no ano seguinte, o crescimento do movimento e as ações de Weinstein. E, então, as coisas ficaram mais complicadas. Tornou-se claro que ainda havia muitas perguntas e sentimentos conflitantes sobre onde esse acerto de contas iria chegar e nós queríamos escrever sobre isso. E essa é uma das razões pela qual o nosso livro, na verdade, os dois últimos capítulos dele, conta a história de Christine Blasey Ford, que aqui nos Estados Unidos se tornou uma das histórias mais visíveis do Me Too ― quando ela testemunhou sobre o caso de assédio que alegou ter sofrido quando estava no colegial por Brett Kavanaugh, que havia sido nomeado para a Suprema Corte dos Estados Unidos. E ela se tornou um símbolo. Algumas pessoas acharam que ela era a heroína do movimento, outras pessoas acharam que ela era a vilã e nós usamos a história dela para falar abertamente sobre outras questões mais complexas que surgiram naquele momento.

Como a sua vida e a de Jodi mudaram desde a publicação da reportagem?

Sabe, Jodi e eu... Você está falando comigo em um momento em que o julgamento de Weinstein está acontecendo aqui em Nova York, e Jodi e eu estamos participando da cobertura em cada reviravolta e em cada novo desenvolvimento. Desde que nós publicamos a história, em outubro de 2017, nossos esforços se concentraram em continuar seguindo essa história. E isso foi o que nós continuamos a fazer. 

Na época, você e Jodi chegaram a pensar ou avaliar a repercussão?

Não. Nós não tínhamos ideia. De fato, houve alguns momentos, algumas noites antes de a história ser publicada… Quando Jodi e eu deixamos a redação, por volta de 1h da manhã, pegamos um táxi para o Brooklyn ― bairro em que nós duas moramos ― e nos olhamos, dizendo: “Você acha que alguém lerá essa reportagem?” [risos] Naquela época, nós sabíamos que estávamos comprometidas com a verdade mas não pensávamos em nenhum tipo de repercussão específica que a história teria. E, então, em questão de dias, nossos telefones e nossos e-mails estavam lotados com depoimentos de mulheres que estavam contando suas histórias de assédio e abuso sexual não só sobre Weinstein, mas que trabalhavam em todo o tipo de ambiente e indústria e foi a primeira indicação de que, para nós, algo estava mudando. De que isso era algo grande. 

E qual a importância, para você, de serem duas mulheres a escreverem essas matérias?

Bem, além de mulheres, nós somos repórteres com muita experiência na cobertura de questões de gênero ― Jodi escreve sobre questões de gênero em corporações e eu sobre crimes sexuais ― e nós temos um longo caminho. Nós começamos essa investigação com um longo histórico que trabalhou para trazer a voz e a experiências das mulheres para as páginas dos jornais.

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