Quão sujo é o dinheiro vivo, afinal?

Mais empresas estão evitando dinheiro vivo por causa da pandemia. Será que isso é mesmo necessário? Eis o que os especialistas dizem sobre quão anti-higiênicas são as cédulas e moedas.

Durante a pandemia do coronavírus, todos nós começamos a prestar mais atenção a possíveis fontes de germes, de superfícies de locais públicos a objetos do dia a dia. Um item tocado com frequência e que muita gente está repensando é o dinheiro.

Nos últimos seis meses, muitas lojas e restaurantes pararam de aceitar dinheiro vivo, preferindo os pagamentos com cartões de débito e crédito ou sistemas digitais como o Apple Pay. Em março, a Coreia do Sul retirou todas as notas de circulação por duas semanas para desinfecção – algumas foram queimadas ― para retardar a propagação da doença. A China tomou medidas semelhantes em fevereiro.

Meses após o início da pandemia, os Centros de Controle e Prevenção de Doenças esclareceram que a transmissão do coronavírus por meio superfícies pode não ser tão corriqueira como se temia. Mas isso não significa que o papel-moeda seja totalmente livre de germes. Quão sujo é o dinheiro, afinal de contas?

“Nós humanos estamos cobertos de micróbios”, diz ao HuffPost Philip M. Tierno, professor de microbiologia e patologia da Grossman School of Medicine, da Universidade de Nova York. “Eles estão por toda parte em nossos corpos e nas coisas que manuseamos.”

Em 2014, pesquisadores do Center for Genomics & System Biology da NYU identificaram cerca de 3.000 tipos de bactérias em notas de dólar de um banco de Manhattan. Esses micróbios incluíam bactérias ligadas a intoxicações alimentares, infecções por estafilococos, úlceras gástricas e pneumonia.

<i>Pesquisadores encontraram milhares de tipos de bact&eacute;rias em notas.</i>
Pesquisadores encontraram milhares de tipos de bactérias em notas.

“Nós humanos estamos cobertos de micróbios”

- Philip M. Tierno, professor da Grossman School of Medicine, da Universidade de Nova York

As cédulas de dólar tendem a circular por cerca de 6,6 anos, de acordo com o Federal Reserve, o banco central dos Estados Unidos. Portanto, há muitas oportunidades para que elas acumulem germes. Um estudo de 2002 da Base Aérea Wright-Patterson, em Ohio, testou 68 notas e descobriu que 94% estavam contaminadas com bactérias.

“Normalmente os humanos depositam bactérias de três áreas do corpo ― secreções respiratórias do nariz e da boca, como estreptococos, organismos da pele, como estafilococos, e material fecal. Como sociedade, estamos banhados por fezes ”, diz Tierno.

“Felizmente para nós, nem todas causam doenças, e nosso sistema imunológico tenta combater infecções”, acrescenta Tierno. “Além disso, é necessário um certo número de organismos para causar uma infecção, e isso varia de acordo com o patógeno. Para que o corpo seja infectado com salmonela, por exemplo, você precisa ingerir ou ingerir uma grande quantidade de bactérias. Já no caso do norovírus, bastam algumas partículas virais.”

Ele afirma que os cientistas ainda estão estudando o coronavírus para determinar quantas partículas virais são necessárias para causar Covid-19.

Tierno também observa que há mais micróbios em notas do que em moedas.

“Alguns dos metais usados na produção das moedas podem ser antimicrobianos. Portanto, você encontrará menos micróbios nas moedas.”

<i>Notas mais novas normalmente n&atilde;o t&ecirc;m tantos micr&oacute;bios quanto as antigas.</i>
Notas mais novas normalmente não têm tantos micróbios quanto as antigas.

Outros fatores que afetam a contagem de microrganismos incluem o tempo de circulação da nota e também a época do ano.

“Cédulas novas contêm uma substância antimicrobiana proprietária, por isso é menos provável que esteja contaminada”, explica Tierno. “Mas essa substância se desgasta com o tempo, portanto, quanto mais velha for a nota, maior será a probabilidade de conter micróbios. Calor e umidade também fazem diferença. O dinheiro de um vendedor de comida de rua que está lidando com materiais oleosos tem mais chances de estar contaminado. ”

As pesquisas também sugerem que as notas de denominação mais baixa provavelmente têm maiores quantidades de microrganismos, pois são manuseadas com mais frequência.

Outras substâncias frequentemente detectadas em dinheiro? Drogas.

Existem vestígios de cocaína em 80% a 90% das notas. Um estudo de 2001 detectou heroína em 70%, metanfetamina em 30% e PCP em 20% do dinheiro vivo.

“O dinheiro não é necessariamente o maior vetor de infecção, mas qualquer objeto tocado várias vezes durante o dia por pessoas diferentes, como seu telefone, pode ser um problema”

- Tierno

Levedura, bolor, DNA animal e partículas de alimentos são apenas algumas das outras coisas encontradas no papel-moeda que podem te levar a lavar as mãos com mais frequência.

Tierno observa que é pouco provável que você fique doente com dinheiro, mas enfatizou que é uma boa ideia lavar as mãos depois de manuseá-lo. O mesmo vale para outros objetos, especialmente durante a pandemia.

“Antes de tocar boca, olhos ou nariz ― pontos de entrada de infecções ― você deve lavar as mãos”, afirma ele. ”O dinheiro não é necessariamente o maior vetor de infecção, mas qualquer objeto tocado várias vezes durante o dia por pessoas diferentes, como seu telefone, pode ser um problema. É por isso que você também deve desinfetar seu telefone periodicamente.”

Para reduzir a disseminação coronavírus, Tierno resume suas opiniões em seu novo livro: First, Wear a Face Mask: a Doctor’s Guide to Reducing Risk of Infection During the Pandemic and Beyond (Primeiro, use máscara: Um guia médico para reduzir o risco de infecção durante a pandemia e além, em tradução livre).

“Usar máscara é muito importante, assim como manter distâncias seguras”, afirma ele. “Isso é uma coisa normal que as pessoas deveriam fazer até que tenhamos uma vacina e imunidade coletiva.”

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.

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