13 sinais de que você está sabotando seu próprio progresso na terapia

Terapeutas indicam como saber se você não está aproveitando bem as sessões de terapia e como resolver o problema.

A terapia pode ser uma maneira extremamente útil e gratificante de examinar a bagagem emocional que está te impedindo de avançar. Mas, como ela requer que você se exponha e mergulhe em temas e sentimentos obscuros, é possível que você se sabote, dificultando seu próprio progresso – e talvez sequer tenha consciência disso.

Os terapeutas descrevem isso como comportamentos que interferem com a terapia (TIB, ou “therapy-interfering behaviors”), e o que é fascinante é que geralmente não temos consciência de quando ou por que estamos dificultando nosso próprio progresso.

“Nos apressamos a desculpar nossas atitudes e demoramos a reconhecer padrões de comportamento em nós mesmos”, comentou a psicóloga Caroline Fleck, da Califórnia.

Esses comportamentos nos protegem contra sentimentos ou pensamentos dolorosos no contexto da terapia. Paradoxalmente, porém, também interferem com nosso crescimento emocional. Então como podemos superá-los?

“É preciso observar esses sinais de alerta – padrões de comportamento que você apresenta – e refletir sobre os pensamentos, emoções e circunstâncias que os precipitaram”, explicou Fleck. Só assim você vai conseguir deixar claro quem é que está no controle.

A seguir, terapeutas identificam 13 sinais de alerta para os quais você deve ficar atento quando faz terapia e explicam como lidar com eles.

1 - Você só tenta enfrentar seus problemas quando está na consulta

Embora a terapia seja um espaço para você receber orientação sobre como lidar com seus problemas, além de empreender mudanças importantes, o objetivo é que ela o empodere para com o tempo fazer as coisas por conta própria.

“Uma das razões por que as pessoas podem se tornar muito dependentes das consultas é que perderam a confiança nelas mesmas e acham que uma fonte externa tem todas as respostas”, explicou a psicóloga clínica Roxy Zarrabi, de Chicago. É um sentimento inteiramente normal, especialmente quando você está passando por uma etapa difícil em que tudo em sua vida parece instável e incerto.

O que fazer: Quando surgem problemas ou obstáculos entre uma consulta e outra, reflita sobre o que foi discutido na terapia, incluindo as técnicas sugeridas para trabalhar problemas, recomendou a psicoterapeuta Brittany Bouffard, de Denver. Aplicar concretamente aquilo que você aprendeu nas consultas vai ajudá-lo a superar padrões antigos nos quais você está atolado e, nesse processo, vai reconstruir sua autoconfiança.

Quaisquer áreas problemáticas que persistam poderão ser discutidas nas consultas subsequentes, quando você poderá criar e executar planos de ação específicos para combatê-las.

2 - Você evita revelar fatos passados importantes de sua vida

Mesmo que o terapeuta tenha realizado uma avaliação inicial abrangente sua, com inúmeras perguntas que cobrem desde sua dinâmica familiar até seus traumas, revelar informações sensíveis que você prefere manter em segredo pode ser difícil, e talvez você não queira fazê-lo. Ou talvez você ache que os problemas que o levaram a buscar a ajuda do terapeuta (ataques de pânico, ansiedade social) não têm relação com determinadas experiências que você viveu no passado. Mas é vital não esconder informações do terapeuta.

“O terapeuta não precisa necessariamente ficar a par de todos os detalhes de sua história, mas é importante que ele conheça as partes essenciais, como as partes que o incomodam e que podem até lhe causar vergonha, tristeza ou outras emoções dolorosas”, disse Zarrabi.

Se seu terapeuta desconhece os fatos mais relevantes, ele ou ela pode utilizar intervenções ou exercícios que talvez não sejam as mais adequadas para seu problema, pelo fato de não estar a par de toda sua história.

O que fazer: É preciso tempo para sentir-se à vontade com um terapeuta. Mas a partir do momento que você se sente pronto para isso, é importante ser totalmente franco sobre as questões com que você está lidando e sobre qualquer história de fundo que possa lançar luz sobre sua situação.

Se você não fica à vontade para se abrir sobre certas coisas, compartilhar esse fato com seu terapeuta pode ser um ótimo ponto de partida. A partir deles, vocês podem trabalhar juntos para revelar informações importantes de uma maneira contida e segura.

3 - Você guarda silêncio quando algo que o incomoda acontece durante a consulta

Se você tem dificuldade em ser franco em seus relacionamentos, talvez não ache fácil transmitir ao terapeuta que alguma coisa não está funcionando ou lhe revelar que ele disse algo que o aborreceu, disse Zarrabi. (Outra razão por que você talvez não esteja dando feedback ao terapeuta é porque você não fica à vontade ou não se identifica com ele.)

O que fazer: Decida se seu desconforto em se abrir é algo relacionado a seus próprios padrões e modos de ser ou se é porque você não está se identificando com o terapeuta. Se for a primeira alternativa, conte a ele o que você está sentindo.

“Essa pode ser uma oportunidade de crescimento incrível e uma ótima maneira de treinar-se a comunicar suas necessidades e preferências em seus relacionamentos”, diz Zarrabi.

E, se você não está à vontade com o terapeuta, considere a possibilidade de afastar-se dele. Você merece se abrir com alguém com quem se sinta à vontade.

4 - Você costuma atrasar-se ou cancelar consultas

Há momentos em faltar a uma consulta inteira ou parte dela se deve apenas a um problema concreto de horários, mas, como acontece com frequência, é possível que isso reflita uma tentativa sua de evitar a terapia, passar longe do terapeuta ou longe dos sentimentos que vêm à tona na terapia, disse Fleck.

O que fazer: Procure tomar nota de quaisquer desejos de evitar a terapia ou o terapeuta, bem como dos sentimentos e pensamentos que precedem essa vontade.

“Às vezes, evitar a terapia é uma estratégia e reflete uma necessidade de mudar”, disse Fleck. Talvez você não confie no terapeuta ou não se sinta em segurança com ele ou ela. Se fosse esse o caso, veja se não é o caso de procurar um terapeuta diferente.

Se o desejo de evitar as consultas é desencadeado pelo medo de enfrentar suas emoções ou porque você se sente esgotado após as consultas, converse com o terapeuta sobre como as consultas poderiam ser organizadas de modo a não serem sentidas como tão pesadas.

Deixar o terapeuta saber que as sessões são muito intensas para você lhe possibilitará suavizar as sessões, buscando um ritmo mais confortável para você.

5 - Você não segue as recomendações do terapeuta fora da consulta

De acordo com Fleck, deixar de aplicar à sua vida cotidiana as habilidades que você está aprendendo na terapia geralmente é resultado de crenças disfuncionais. (Por exemplo, a ideia de que sua situação não tem solução, que são as outras pessoas que precisam mudar ou que você é um caso perdido.)

O que fazer: “Não acredite em suas hipóteses sobre você mesmo ou sobre o mundo, não sem colocá-las à prova primeiro”, recomendou Fleck. Ele sugeriu que você faça de conta que é um cientista que realiza uma série de mini-experiências para determinar o que funciona ou não.

“Através de tentativa e erro, podemos refinar nossas crenças acerca do mundo e de nós mesmos”, disse Fleck. “Os dados que você compila por fazer experimentos fora da consulta são tão valiosos ou até mais valiosos que qualquer resultado dado.”

6 - Você está usando a terapia para desabafar e nada mais

A terapia é um lugar sadio para desabafar suas frustrações com os problemas que você enfrenta, mas isso é apenas uma parte de um processo muito maior. “Desabafar é produtivo quando você está passando por uma situação que precisa processar”, disse Bouffard. “Mas o desabafo também pode virar uma maneira de ignorar ou evitar mergulhar no processo mais profundo.”

O que fazer: Para não ficar apenas eternamente desabafando, pense no que o levou a começar a fazer terapia, em primeiro lugar. Quais eram suas metas maiores? Que padrões você queria desconstruir? Como você queria se sentir diferente? Concentre-se em explorar seus objetivos maiores com seu terapeuta e esforce-se para deixar de desabafar quando você percebe que isso está atrapalhando seus objetivos.

7 - Você omite detalhes para não ficar mal na fita

Talvez seu terapeuta não flagre suas omissões sempre, mas com o tempo ele ou ela vai captar que detalhes importantes estão sendo deixados de fora. Em última análise, disse Fleck, “ninguém tem tanto azar assim com seu chefe, sua mulher, seus filhos, seus amigos e seus colegas de trabalho”.

O que fazer: Experimente mostrar ao terapeuta seu lado pior quando se trata de alguma coisa relativamente sem importância – por exemplo, aquela vez que você se descontrolou e gritou com uma pessoa por roubar sua vaga no estacionamento do supermercado. “Talvez você se surpreenda ao ver o terapeuta validar sua atitude ou ao descobrir que é útil receber alguns feedbacks sobre seus momentos pouco positivos”, disse Fleck.

Fazer terapia leva tempo e custa dinheiro. Por isso mesmo, vale a pena descobrir se lhe ajuda compartilhar as coisas desagradáveis com o terapeuta e continuar trabalhando até você e o terapeuta se entendam.

8 - Você sente necessidade de drogas ou álcool para enfrentar a consulta

Mais pessoas do que você talvez imagine precisam de substâncias como a maconha para conseguirem encarar uma terapia. “Independentemente de uma dependência química ser um problema da pessoa, o uso constante de drogas ou álcool antes das consultas geralmente tem o efeito de amortecer ou mascarar emoções dolorosas como raiva ou vergonha e, às vezes, de suavizar comportamentos como gritos ou discussões”, disse Fleck. E isso pode atrapalhar seu progresso.

O que fazer: Não use drogas ou álcool antes das consultas. Se essa vontade sempre aumenta antes da consulta, abra-se com o terapeuta sobre isso, disse Fleck. Você e ele poderão trabalhar juntos para encontrar outras maneiras de administrar emoções dolorosas antes, durante e após as consultas.

9 - Você muda de assunto quando aparece um tópico doloroso

As pessoas frequentemente se esforçam muito para evitar sentimentos dolorosos, justamente por serem dolorosos. “Algumas pessoas já tiveram seus sentimentos minimizados, ignorados ou invalidados muitas vezes por outras pessoas na vida, então talvez receiem que o terapeuta fará a mesma coisa se elas se abrirem com ele”, disse Zarrabi.

Outras pessoas que estão acostumadas a reprimir seus sentimentos talvez tenham medo de que, se deixarem as emoções aflorar, elas serão avassaladoras demais e eles não conseguirão lidar com elas.

O que fazer: Tudo bem não estar preparado para compartilhar seus sentimentos mais sofridos, e você pode explorar com o terapeuta as razões por que você não está conseguindo se abrir. “Veja como o terapeuta reage às suas preocupações e ameniza seu medo do que pode acontecer se você se abrir. Isso pode ajudá-lo a ficar mais à vontade para se abrir na hora que se sentir pronto para isso”, aconselhou Zarrabi.

10 - Você discute frequentemente com seu terapeuta

Cabe ao terapeuta te desafiar e chamar sua atenção para padrões que podem estar atrapalhando seu desenvolvimento pessoal. Quando ele o faz, sua reação instintiva talvez seja desviar o assunto para outra coisa, levar na brincadeira ou reagir com raiva.

Isso ocorre por que não é fácil reconhecer quando você criando obstáculos para si mesmo. “Talvez você se envergonhe ou decepcione consigo mesmo, e, em vez de se autorizar a sentir essas emoções, você se esquiva ou adota atitude defensiva”, explicou Zarrabi.

O que fazer: Se você reagir fortemente a algo que seu terapeuta disse, preste atenção. “Essa emoção está tentando lhe comunicar algo importante”, falou Zarrabi.

Espere um minuto antes de reagir e procure processar o que está sentindo. Desacelere, observe as emoções e as sensações físicas, os pensamentos que vêm à tona, e então decida como proceder.

Pode ser desagradável e levar muita prática, mas você provavelmente acabará aprendendo coisas importantes sobre seus próprios padrões de comportamento, e isso pode lhe levar a amadurecer e ganhar mais consciência de si, disse Zarrabi.

11 - Você exagera para comunicar ao terapeuta que está realmente mal

Quando você fica aborrecido, aflito ou infeliz, talvez tenha o hábito de exagerar para ajudar a comunicar ao outro o quanto está se sentindo mal. “O exagero pode aumentar a probabilidade de você receber a resposta que busca da outra pessoa”, comentou Fleck.

Os terapeutas se deparam com isso frequentemente com pacientes que já foram invalidados com frequência – por exemplo, porque suas emoções frequentemente são minimizadas ou ignoradas por outros.

O que fazer: “Lembre que exagerar é uma forma sutil de se auto-invalidar”, destacou Fleck. “Quando você exagera, está basicamente dizendo a si mesmo que seus problemas ou experiências não justificam a reação que você está tendo.”

Além de dizer ao terapeuta claramente o que aconteceu, pratique dizer a ele (e, com o tempo, a outras pessoas) exatamente o que você quer delas naquele momento para sentir-se ouvido ou compreendido. Isso pode levar algum tempo para descobrir, mas a terapia é o espaço perfeito para identificar e aprender como comunicar suas necessidades.

12 - Você depende da terapia para se sentir validado

“A validação é uma parte importante da terapia. Isso frequentemente envolve o terapeuta ressaltar os pontos fortes do cliente e ajudá-lo a reconhecer o progresso que já fez, além do amadurecimento que conquistou”, disse Zarrabi.

O objetivo é ajudar o cliente a aprender a confiar em si mesmo e fortalecer sua validação interna.

Se você não se sente bem quando ocorrem coisas positivas, como alcançar uma meta importante, porque o terapeuta não está presente para validar essas conquistas, pode ser sinal de que está dependendo demais da terapia para lhe dar validação de fora.

“Talvez você não se sinta validado por outras pessoas em sua vida, então procure validação principalmente do terapeuta”, disse Zabbari.

O que fazer: Se você nota isso acontecendo e está preocupado com isso, traga o assunto à tona com o terapeuta. Ele pode ajudá-lo a explorar as razões por trás desse padrão de comportamento e a criar maneiras de se validar.

Para trabalhar isso entre uma consulta e outra, tome nota de cada vez que você avança ou muda alguma coisa. Pergunte-se: “Se um amigo me falasse dessas mudanças que fez em sua vida, como eu reagiria?” E então pratique aplicar essas declarações de apoio a si mesmo.

13 - Você usa a terapia para preencher a falta de relacionamentos em sua vida

Seu vínculo com o terapeuta é um vínculo de confiança e segurança, mas é difícil de definir. Não é um laço familiar. Não é uma amizade nem um relacionamento romântico. No entanto, é o terapeuta que você procura quando está se sentindo só ou está se isolando emocionalmente de outros.

Naturalmente, sua mente tenta encaixar esse vínculo em uma categoria com que você está mais acotumado (amigo, companheiro, colega de trabalho...), e isso pode levar a sentimentos confusos ou a você desejar mais do relacionamento, disse Bouffard.

O que fazer: Seja honesto consigo mesmo. Você tem relacionamentos sociais suficientes fora da terapia, ou está usando o terapeuta como sua fonte principal de conexão emocional?

“Trazer à tona quaisquer sentimentos mais intensos que o sentimento paciente-terapeuta que você possa estar tendo pode ser utilíssimo para descobrir mais sobre necessidades que você talvez tenha na sua vida cotidiana e que não estão sendo supridas”, disse Bouffard.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.

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