Opinião

Quem precisa de marido?

'Eu gosto que alguém cuide de mim', comento com uma amiga. Estamos em um restaurante. Essa minha amiga é solteira, eu sou casada e o assunto é como eu nunca fiquei sozinha por muito tempo, ao contrário dela. Penso que estou num território seguro e nem me passa pela cabeça que ela vai me julgar e muito menos me criticar, mas ela solta: 'Como assim! Que absurdo! Que coisa mais antiga! Logo você,que se diz feminista, Liliane Prata! Que horror...'

- Eu gosto que alguém cuide de mim - comento com uma amiga.

Estamos em um restaurante. Essa minha amiga é solteira, eu sou casada e o assunto é como eu nunca fiquei sozinha por muito tempo, ao contrário dela. Penso que estou num território seguro e nem me passa pela cabeça que ela vai me julgar e muito menos me criticar, mas ela solta:

- Como assim! Que absurdo! Que coisa mais antiga! Logo você,que se diz feminista, Liliane Prata! Que horror...

Nota 1: como assim nem havia passado pela minha cabeça que ela iria me julgar? Claro que ela iria, todos nós julgamos todos nós, a diferença é que os amigos fazem isso em voz alta, para a gente. Nota 2: essa minha amiga chama os outros com nome e sobrenome quando exaltada.

- VEJA BEM - digo, suspirando. - Não é que eu odeie ficar solteira. Mas acho a vida mais legal quando estou com alguém...

- Você só está piorando as coisas... Logo você, que vive falando "ai, adoro fazer tudo sozinha, ai, amo ficar sozinha"...

- Pois é, mas gosto de saber que a pessoa que eu amo está em casa e vai cuidar de mim quando eu chegar, o que eu posso fazer?

- Machismo.

- Mas eu também vou cuidar da pessoa quando eu chegar.

- Machismo. Essa coisa de cuidar, essa coisa maternal, me lembra aquele livro que você vive falando que adora, "Complexo de Cinderela".

Nota: adoro mesmo esse livro, de autoria da americana Colette Dowling. É uma obra que vendeu muito nos anos 80, já com estudos datados e um tom igualmente datado em algumas passagens, mas, de modo geral, trata-se de um livrinho precioso para nos fazer refletir sobre questões de gênero. Basicamente, "Complexo de Cinderela" fala sobre como nós, mulheres, somos criadas para ser salvas por um príncipe encantado. Não somos educadas para resolver nossas vidas: somos educadas para querer que um homem faça isso por nós.

- Alô - eu falo com meu marido, pelo telefone, com minha amiga do lado. - Me responde rápido: você gosta de ser cuidado?

- Hã?

- No nosso casamento. Você gosta de ser cuidado por mim?

- Óbvio!

- E você gosta de cuidar de mim?

- Claro que gosto, que pergunta.

Desligo o celular com ar triunfante.

- Sim e sim, ele respondeu - digo. - Estranho é alguém não gostar de cuidar e de ser cuidado.

- Mas você tem que saber ficar bem solteira.

- Eu fico bem solteira, claro que fico, não dependo de um relacionamento para ser feliz. Mas PREFIRO estar num relacionamento longo com alguém, ué. Sou MAIS feliz assim, quando estou numa relação harmônica e tal.

- Hum.

- Questão de gosto.

- Hum.

Mudamos de assunto. Minha amiga não me parece totalmente convencida. Já eu estou convencida de duas coisas: amar e ser amado é cuidar e ser cuidado, independentemente do sexo. E gostar que alguém cuide da gente é bem diferente de precisar. Nesse aspecto, "Complexo de Cinderela" não é nem um pouco datado. Homens e mulheres, temos, todos nós, de saber andar com as próprias pernas. Não precisamos de um companheiro ou companheira. Mas que é bom quando essa (boa) companhia existe, é. É bom demais. É amor, ora!


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