Opinião

É difícil achar um pornô que agrade às mulheres

Depois de passar os meus anos formativos me irritando com o fato de que meus ovários reduziriam meu contracheque em comparação com o dos meus pares masculinos, é difícil se excitar assistindo a algo que se baseia na ideia de que as mulheres existem para a gratificação sexual dos homens. Mas, mesmo que eu gostasse de proclamar que parei de assistir pornôs por ser uma feminista dedicada, não estaria falando toda a verdade.

Em vários momentos da minha vida, o feminismo me obrigou a rever minhas prioridades. Como alguém forçado a ver como se fazem as salsichas, ficou difícil pra mim gostar de hip-hop depois de perceber que é impossível conciliar A Mística Feminina com letras como "manda aquela vadia subir no meu pau... mandei ela chupar e enfiei minha cara nas tetas dela". Além de querer saber se o A$AP Rocky beija a mãe com aquela boca, percebi como é duro curtir algo de forma inocente depois de dar-se conta da sua ligação intrínseca com a degradação das mulheres.

O mesmo vale para o pornô. Depois de passar os meus anos formativos me irritando com o fato de que meus ovários reduziriam meu contracheque em comparação com o dos meus pares masculinos, é difícil se excitar assistindo a algo que se baseia na ideia de que as mulheres existem para a gratificação sexual dos homens. Mas, mesmo que eu gostasse de proclamar que parei de assistir pornôs por ser uma feminista dedicada, não estaria falando toda a verdade. Minha resistência a frequentar o Pornhub se explica pelo fato de que eu não consigo gozar se nem sequer as mulheres que estão no vídeo estão gozando. Além disso, sempre foi uma batalha conseguir chegar ao clímax assistindo vídeos em que toda mulher que finge adorar sêmen nos cabelos é mais magra e cuidada do que eu jamais serei.

A maioria do pornô que eu assisti envolve a degradação sistemática de mulheres, em vídeos que têm a duração exata necessária para um cara gozar. Mas não pense que tenho versão a Pornhub, YouPorn e RedTube por falta de procurar alguma coisa que seja "apropriado para mulheres" - eu tentei, acredite. Perdi a conta de quantas noites cliquei cheia de esperança na aba "female friendly", só para encontrar mais vídeos feitos por homens que não têm ideia do que as mulheres querem.

A internet é um lugar em que qualquer fetiche é tolerado. Tem alguma coisa pra todo mundo, literalmente, menos para uma feminista com tesão. Quando é mais fácil achar vídeos de bukkake do que uma mulher tendo um orgasmo genuíno, você sabe que existe um nicho de mercado a ser explorado. Foi por isso que fiquei feliz ao descobrir que há um site de pornô feminista em produção, que estrela mulheres "reais" e vídeos que são submetidos a um comitê antes da sua publicação. Tranque a porta, acenda as velas perfumadas, coloque um Marvin Gaye e deixe o resto comigo.

Mas, como na minha turbulenta relação com o Drake, eu ainda tinha dificuldade em reconciliar a ideia de que feminismo e pornô pudessem se encontrar no mesmo lugar. Pornô "feminista" soa muito bem, mas também soa como um paradoxo. Não há como não se perguntar como uma indústria tão profundamente ligada à exploração e à degradação das mulheres possa produzir algo minimamente parecido com um pornô apropriado para mulheres. Eu já tinha aceitado que o pornô sempre envolveria mulheres tratadas como objetos, não importa o marketing que fizerem.

Como uma miragem em um deserto de duplas penetrações, eu acreditei que um pornô "feminista" não pudesse existir de verdade. Depois de tantas decepções com vídeos "woman-friendly", não é difícil achar que uma versão "feminista" vai ser só mais um filme cheio das ideias do que os homens acham que as mulheres gostam. Mas se Karren Brady conseguiu acertar o telhado de vidro da presidência da Premier League, a liga inglesa de futebol, por que eu teria de continuar aceitando os parâmetros da pornografia estabelecidos pelos homens? Por que o pornô não pode genuinamente refletir as preferências das mulheres? Talvez o pornô seja a nova fronteira da revolução feminista.

É verdade que o pornô ecoa muitos estereótipos negativos dos gêneros. Mais mulheres podem fazer sua presença notada nas empresas, mas a sexualidade feminina ainda é amplamente desprezada, enquanto a sexualidade masculina nos confronta até mesmo em anúncios de macarrão instantâneo. É por isso que a crescente demanda pela pornografia deve ser celebrada - é um reconhecimento dos desejos sexuais das mulheres, uma expressão da sexualidade feminina. É por isso que vou receber o pornô "feminista" como o primeiro dia da primavera - ele reconhece uma demanda por algo mais focado no mundo feminino, celebra a sexualidade delas e representa uma mudança épica da nossa aceitação da degradação constante das mulheres. Elas podem se virar sozinhas.