OPINIÃO
29/06/2015 13:25 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:34 -02

O ataque à Tunísia e a luta por símbolos

A tentativa de criar um califado muçulmano sob a liderança de "Califa Ibrahim," em pleno século XXI, indica, entre outras coisas, que o ISIS está empenhado em destruir tudo o que não estiver de acordo com a sua cartilha sectária. Tal niilismo (o desejo de resgatar valores e elementos considerados hoje esvaziados) não diz respeito a uma guerra religiosa. A narrativa aqui empregada diz respeito, sobretudo, à luta por poder, símbolos e liberdade.

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Na experiência do absurdo, o sofrimento é individual. A partir do movimento de revolta, ele ganha a consciência de ser coletivo, é a aventura de todos.

Albert Camus

A delicada transição democrática na Tunísia sofre mais um duro golpe. O ataque do Estado Islâmico - que deixou ao menos 38 mortos - é mais um capítulo na luta que envolve poder, símbolos e liberdade. O período pós-revoltas árabes, cujo estopim ocorreu na própria Tunísia com a derrubada do regime de Ben Ali, é marcado por idas e vindas, vitórias e derrotas e, sobretudo, por uma sequência de ataques (coordenados ou não) na França, na Tunísia, no Iêmen, na Arábia Saudita e em outros países.

A Revolução de Jasmim tunisiana, que culminou na implementação de uma constituição democrática, vista como a mais bem sucedida experiência pós-revoltas, tem sido alvo recorrente de ataques do grupo político armado Estado Islâmico (ou ISIS - termo usado para desconstruir ideias do grupo armado).

A escolha da Tunísia como alvo tem explicação na própria forma de atuar do ISIS. Ao atacar o único país que migrou de um regime autoritário para uma democracia, o ISIS está em verdade dando um recado ao Ocidente e também aos demais países da região do Oriente Médio e do Magreb. O recado é que não haverá tolerância a quem ousar se aproximar dos valores Ocidentais. A intolerância é uma das características do ISIS, sobretudo quando alguns símbolos estão em jogo: democracia, liberdade, autonomia, secularização, entre outros.

A tentativa de criar um califado muçulmano sob a liderança de "Califa Ibrahim," em pleno século XXI, indica, entre outras coisas, que o ISIS está empenhado em destruir tudo o que não estiver de acordo com a sua cartilha sectária. Tal niilismo (o desejo de resgatar valores e elementos considerados hoje esvaziados) não diz respeito a uma guerra religiosa. A narrativa aqui empregada diz respeito, sobretudo, à luta por poder, símbolos e liberdade.

Os ataques à Tunísia (dois em e três meses) não devem ser vistos como meramente uma tentativa de expansão territorial, conforme se verificou na Síria e no Iraque (escrevi sobre a luta hegemônica e territorial em outro texto). Diferentemente desses países, na Tunísia os ataques carregam um valor simbólico muito expressivo. É um duro golpe à liberdade e à autonomia das escolhas que a sociedade civil tunisiana reservou.

Por esse motivo, para além da disputa politica interna em torno do poder, a Tunísia é mais uma peça-chave na luta pelas ideias na região e nas suas fronteiras. A manutenção democrática no país ajuda a manter vivos símbolos importantes, inclusive como parte do desejo de outros povos que ainda perecem sob governos ditatoriais, reinados e regimes de exceção.

O processo secular tunisiano preserva, mesmo sob forte pressão do ISIS, a coesão social acerca do projeto democrático. Nesse sentido, a famigerada "comunidade internacional" pode ter papel fundamental se lhe interessar inverter toda a lógica de relação com a região do Médio Oriente. Ou seja, menos intervenção e mais cooperação e cambio de informações e processos que ajudem na construção de um novo período.

Nesse sentido, os países do Sul-Global (ou da América Latina) - que tem em comum a experiência de passar por transições democráticas - podem cooperar e mostrar caminhos alternativos.

Os símbolos da mudança foram novamente atacados. A resposta está na reafirmação da liberdade e da autonomia do povo tunisiano.

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