OPINIÃO
24/11/2014 17:41 -02 | Atualizado 26/01/2017 21:52 -02

Cachinhos Dourados e suas escolhas

Muitas vezes o problema com os acordos globais é justamente a obsessão com os maiores emissores do local. Mas por que não começar por baixo, abandonando os desajeitados movimentos do alto, com EUA e China?

John James via Getty Images

Nas últimas duas semanas, o acordo formal entre os EUA e a China, as duas maiores potências econômicas do mundo (e não por acaso emissores de gases do efeito estufa), inaugurou o que pode ser a mais importante politica relacionada à mudança climática desde o Protocolo de Kyoto em 1997. E praticamente não se falou nisso. Sites de notícias americanos ficaram mais preocupados com o fato de Barack Obama ter feito uma reverência ao presidente chinês, em mais um sinal de sua covardia e falta de patriotismo, e se ele ficará ao lado dos republicanos em uma série de outras lutas políticas, antes da mudança na composição do Congresso no próximo ano. Sites de notícias do Brasil, por sua vez, estavam preocupados com Lava Jato... e traseiros; sendo este último uma preocupação diária desses sites, e o anterior provavelmente será esquecido dentro de alguns meses.

Como resultado, o pacto assumiu o tom de um "Conto de Duas Mediocridades". Os EUA e a China se comprometeram com uma série de medidas no sentido de reduzir as emissões de CO2. Estes passos foram elogiados como uma base para mudanças e poderia significar o fim da intransigência por parte dos dois maiores emissores do mundo, sinalizando, assim, para uma iniciativa global obrigatória em Paris em dezembro de 2015. No entanto, também tem sido chamado de capitulação de um presidente incompetente (Barack Obama), arrogantemente recebido por um líder mais poderoso em seu auge (Presidente Xi Jinping). Entretanto, ambas as críticas são erradas, e leitores brasileiros devem ter atenção especial, pois há espaço para Ordem e Progresso, e mais do que aproveitar, progredir de fato, por conta própria.

Como um vago relatório de um livro do ensino médio, o acordo não especifica uma série de ações concretas que devem ser tomadas. Na configuração atual, os EUA se comprometem a reduzir as emissões de dióxido de carbono em pelo menos 26 por cento em relação aos níveis de 2005 (a linha de base) até o ano de 2025. A China planeja o pico de emissões por volta do ano de 2030. Ambas as tentativas não seriam eficazes na redução das emissões que levam a elevação em 2 graus Celsius da temperatura no planeta e faz com que tantos analistas climáticos temam que acelerem uma série de problemas envolvendo desastres naturais, a elevação do nível do mar, a desertificação e outras na linha dos Sete Cavaleiros do Apocalipse.

A ambiguidade do comunicado conjunto, no entanto, também pode ser um momento oportuno para Paris. Isto é, os investidores internacionais, tendo percebido a dinâmica de um acordo bilateral, estarão sob maior pressão para produzir resultados. A UE tem estado travada em suas metas de redução de emissão de gases de efeito estufa nos últimos anos, apesar de ter sido anteriormente a defensora das propostas mais significativas. Este movimento pode estimular iniciativas em Bruxelas e investimentos complementares em outras partes da UE. A Índia argumentava ter uma população semelhante a da China, mas com emissões comparáveis a da Rússia, e, portanto, não deveria estar vinculada às mesmas metas. O novo governo indiano pode agora estar mais disposto a conter o seu desenvolvimento econômico, se perceber que o cenário está favorável.

Como em tudo relacionado à mudança climática e à política internacional, o resultado deste acordo vai dar crédito apenas parcial para o amplo consenso entre cientistas internacionais. Seus trabalhos e as prescrições serão tratados como uma série de opiniões, ou na melhor das hipóteses, diretrizes, úteis para a elaboração de normas e regulamentos flexíveis que satisfaçam apenas burocratas café com leite e Cachinhos Dourados. Também será difícil convencer um inquieto Congresso dos EUA, controlado por um partido hostil à própria existência da mudança climática, e para satisfazer os empresários chineses e planejadores centrais que foram comprados pela ideia de crescimento econômico exponencial, sob o pretexto de livrar o país da pobreza, tornando-se a próxima superpotência do mundo de uma vez por todas. Estes maximalistas de crescimento são mais facilmente contidos pelas tendências autoritárias do Partido Comunista do que os republicanos norte-americanos (e alguns democratas) são pela lógica e pela razão. Apostar em ambos não é nada seguro.

Mas deixando toda a mediocridade de lado, o impulso deve ser abraçado. Igualmente pelo Brasil. O governo de Dilma está tentando melhorar sua reputação ecológica através do desenvolvimento de questionáveis projetos hidrelétricos, sem emissão de carbono, e diminuição do desmatamento na Amazônia. No entanto, existe uma vertente da ciência que discorda das alegações de que as barragens vão contribuir efetivamente para a redução de gases de efeito estufa a longo prazo. Mudanças no código florestal do país e um ressurgimento de atividades econômicas que impulsionam o desmatamento, após os recessos da crise mundial, já devem ter dado início a um ciclo de crescimento para os próximos dois anos. Um argumento, obviamente, é que o Brasil emite bem menos comparado aos grandes emissores no mundo, por isso não deve ser obrigado a tomar ações radicais. Afinal, as emissões de CO2 por aqui são tímidas em comparação aos Big 6 (EUA, UE, China, Índia, Rússia e Japão).

Mas segundo um legado de filósofos e teóricos brasileiros, por que não iniciar o movimento político de base? Forçar uma mudança interna, e, finalmente, mais ação dentro dos BRICS? Ou até mesmo começar com o comércio bilateral e relações políticas ao lado da Rússia, Índia, China e África do Sul?

As iniciativas necessárias poderiam incluir restrições à produção de soja e criação de gado, que alteraram grandes extensões de floresta e acarretaram na emissão de enormes quantidades de gases de efeito estufa, mas estão raramente presentes em discussões sobre mitigação. Nós todos sabemos que os brasileiros gostam de comer carne (muito; 7,9 milhões de toneladas em 2013), e exportá-la (1,8 milhões de toneladas em 2013). A soja também é exportada em grande número (56 milhões de toneladas em 2013). Se o país tem apostado muitos de seus esforços de prevenção das alterações climáticas na diminuição do desmatamento, os esforços que competem ao agronegócio não são apenas desejáveis, mas necessários.

Mas por que parar por aí? O escândalo da Petrobras não é meramente uma falcatrua ou uma fraude tributária (embora também seja). Ele chama a atenção para um problema inerente a qualquer país com uma indústria de energia centralizada, especialmente os controlados pelos poluidores que têm pouco interesse no bem comum ou na saúde do planeta. Esta parece ser uma verdade universal para toda exploração de combustíveis fósseis conhecida, tanto para o velho carvão quanto para os petroleiros dos EUA, que têm comprado muito de quem já tem um frágil sistema político, ou ainda para a empresa brasileira de capital aberto, cujo acionista majoritário é o governo federal. Soluções de energia renovável são geralmente mais descentralizadas e menos propensas aos piores tipos de corrupção e captação de recursos, além de serem mais "limpas". Se o Brasil insiste em um regime de desenvolvimento no modelo atual do capitalismo global, o que muitos esperam não continuar, até mesmo as fontes de energia hidrelétrica (que este autor despreza) são melhores do que a exploração de petróleo em alto mar.

Então, muitas vezes o problema com os acordos globais é justamente a obsessão com os maiores emissores do local. Este comportamento tem paralisado reuniões climáticas da ONU durante anos, e fez toda a conversa sobre esforços coordenados globalmente fazer, mesmo os mais otimistas, se frustrarem. Mas por que não começar por baixo, abandonando os desajeitados movimentos do alto, com EUA e China? Por que não começar por baixo, com a criatividade e interesse no destaque global já aparentemente almejado pelo governo brasileiro? Esta administração considerou que a Internet valia a pena quando escreveu o famoso projeto de lei dos direitos na internet. Os adeptos da tecnologia e capitalistas arrojados do Vale do Silício falam do Brasil com admiração, acerca do debate atual sobre a neutralidade da rede. Faz os EUA parecem com um estado controlado por barões ladrões do século 19, não por internautas do século 21. O Brasil poderia envergonhar os aliados norte-americanos mais ainda com uma nova política em relação às emissões.

Para dar o pontapé inicial, sugiro começar bilateralmente. Uma discussão incluindo os tipos de reduções que, se adotadas internacionalmente, iriam manter o mundo abaixo do aumento esperado de 2 graus Celsius na temperatura mundial. Que tal um almoço no Salão de Luz Roxa? Os funcionários do Presidente Jinping irão servir uma refeição de 15 pratos, e a presidente Dilma irá fazer considerações após degustar cada prato. Ela vai experimentar a sopa e dizer que é muito quente. Depois disso, ela vai para o pato, mas envergonhadamente convencida de que é muito frio. Ela finalmente irá decidir pelo prato de macarrão chinês que é o mais equilibrado.

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