OPINIÃO
03/12/2015 11:10 -02 | Atualizado 26/01/2017 22:38 -02

As lições que um impeachment nos impedirá de aprender

Manter Dilma no poder seria um preço aceitável para convencer muitos que esse ativismo estatal na economia é danoso. Isso ajudaria os principais partidos a reformarem seus programas e abraçarem definitivamente a ideia, por convencimento empírico, de um Brasil com menos Estado e mais mercado.

DIDA SAMPAIO/ESTADÃO CONTEÚDO

A Dilma é um desastre. Fato. Terá certamente seu nome inscrito na tábua dos chefes de Estado mais medíocres que o Brasil já teve. Mas há duas coisas que me inclinam a não gostar muito da ideia de ela sofrer impeachment.

Primeiro, a forma como o processo está sendo feito. É verdade que ele foi iniciado por razões genuínas (afrontas descaradas à Lei de Responsabilidade Fiscal), mas é um tanto vexatório -- na mesma medida que preocupante -- saber que sua continuidade não será resultado do funcionamento mecânico das engrenagens da nossa máquina institucional, mas produto de uma vingança pessoal por uma tentativa de conjuração fracassada entre os chefes do Executivo e do Legislativo. Tudo será simplesmente muito discricionário. E não sou fã da ideia de que os fins justificam os meios.

Segundo, e talvez mais importante, porque isso impedirá que aprendamos uma lição. O impeachment agora livrará essas nefastas ideias econômicas patrocinadas pelo governo petista de serem responsabilizadas pela miséria e bagunça econômico-institucional que elas invariavelmente produzem (há quem ainda acredite que a crise é fruto de um ajuste fiscal que nunca existiu, e não da mão pesada do governo em vários mercados).

É verdade que mantê-la no cargo seria extremamente custoso para a sociedade, sobretudo para aqueles que os partidários do governo dizem querer ajudar -- os mais pobres.

Mas seria um preço aceitável na medida em que convenceria muitos que esse ativismo estatal na economia é danoso. Isso ajudaria os principais partidos a reformarem seus programas e abraçarem definitivamente a ideia, por convencimento empírico, de um Brasil com menos Estado e mais mercado -- similar ao que aconteceu com o Partido Trabalhista Britânico na década de 90.

A importância dessa lição não deve ser subestimada, pois é nossa incapacidade, enquanto sociedade, de compreendê-la que está por trás do nosso subdesenvolvimento e dessa armadilha da renda média dentro da qual estamos preso.

A saída de Dilma poderá dar uma injeção de ânimo em uma economia com expectativas combalidas. Mas estaremos, talvez, sendo míopes, não enxergando a importância de aprendermos de uma vez por toda o preço do populismo e da heterodoxia econômica.

Espero estar errado, mas desconfio que a doença do dirigismo estatal à lá Geisel vai voltar a nos acometer em um futuro próximo.

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